
Como sabem, eu digo que a vida é um jogo. E sem metáfora alguma. Estamos sempre jogando com as nossas probabilidades, apostando em um futuro, em uma melhor versão de nós mesmos.
Pascal, pensador cristão em plena modernização do século XVII, tinha pensamentos — aliás, seu livro mais famoso chama-se justamente Reflexões — muito belos sobre a existência, inclusive via a escatologia como uma aposta.
Antes, uma breve explicação sobre o termo escatologia: escatologia significa limites, pensamento limítrofe, até o máximo de uma consequência, mas também aquilo que está por vir. Aparece muito no Novo Testamento. Etimologicamente, une as palavras logos e eschatos, que significam restos, estrumes.
Então, o significado literal seria: a ciência do estrume, da merda. E o que tem a ver com o juízo final é que, no dia da escatologia, a merda social virá à tona, e Ele separará os excrementos que arderão no inferno — ao invés de simplesmente dar descarga — e os escolhidos irão para o paraíso, que é como um esgoto canalizado dos excrementos selecionados por Deus, imagino eu…
Dessa forma, Pascal diz que é mais esperto apostarmos na eternidade no paraíso de Deus do que em uma vida eterna de danação. Pois se estivermos errados, não perderemos nada; e se estivermos certos, ganharemos a eternidade.
Outra reflexão muito bela de Pascal é que ele olhava para si e se desesperava com o tédio; olhava para o mundo e se via como uma grande contingência. Do mesmo modo que nasceu ali, poderia ter nascido em qualquer outro lugar das bilhões de galáxias existentes — que na época ele sequer conhecia. Por isso se enxergava tão pequeno diante da existência.
Eu gosto do livro O Guia do Mochileiro das Galáxias, especialmente da parte em que tentam punir Zaphod Beeblebrox colocando-o em uma máquina que faria com que ele percebesse sua pequenez diante da enormidade do universo, sem abstração. Isso era tido como cair no CAPS sem volta, no abismo da existência antes que houvesse Gaia.
No entanto, Zaphod se percebeu o indivíduo mais foda do planeta, pois haviam invertido a lógica: em vez de se sentir o menor, ele se viu como o centro do universo.
Então, eu acho que onde a reflexão pascaliana falha — para usar o nome de um livro de Pierre Bourdieu — é que, se apostamos na existência eterna divina, perdemos justamente a capacidade de desfrutar ao máximo a única existência possível, compreensível, que é aqui, na Terra.
Como o alienígena de duas cabeças do livro de Douglas Adams, somos o centro do nosso universo, trabalhando dentro da contingência da vida para extrair dela a nossa melhor visão. Se de algum modo existe o paraíso na Terra, ele não é coletivo, não está fora, mas dentro de nós.
E é nisso que nós, que apostamos na nossa melhor versão de cada dia e trabalhamos para buscá-la, apostamos. E não no tigrinho ( a não ser que seja o Tigrinho do Palmeiras, Vitor Roque). E não no paraíso cristão.