
Não por ser religioso, nem mesmo por medo, tampouco por falta de vontade. Mas por consideração. Porque vontade mesmo eu até tenho. E que, de certa forma, é cobiçar.
Como se o desejo levasse em conta a vontade, a religião ou a ética…
Mesmo sabendo que, ao satisfazer meu próprio desejo, faria muitas vezes um favor que resultaria na libertação da mulher, a consideração pelo respeito — ao passado, à tradição, talvez acima da moral — não permite.
A maioria das mulheres se precipita. Ainda mais na periferia, onde as oportunidades são menores e os estímulos escassos.
Por tédio de si mesmas, e por não enxergarem nada além de seus horizontes atrofiados, acabam se envolvendo com o primeiro que aparece e demonstra o mínimo de interesse nelas. Fazem, então, a idiotice de engravidar, ficando presas a um destino igual ao de Sísifo: carregar eternamente uma pedra que sempre retorna, mesmo que o homem ao lado não tenha nada a ver com ela.
Por falta de oportunidade e força — e talvez também de uma outra força que as liberte dessa visão rasteira e restitua a si mesmas — permanecem aprisionadas em relacionamentos sem futuro, sustentados apenas pela criança e pela banalidade da rotina.
Minha vizinha da frente parece modelo.
Não irei fazer ponderações sobre seu marido, por ele ser meu conhecido de infância, mas digamos que difere dela em forma, distinção, beleza e elegância. Eu a vi lendo na varanda, concentrada, com fone de ouvido.
A luz do sol ressaltava sua beleza natural, emprestando contornos ainda mais belos a essa paisagem. Para um esteta como eu, que padece da doença de ser hipersensível à beleza, você deve imaginar como essa cena mexeu comigo — até o momento do alívio derradeiro: quando escrevo sobre ela.
Na impossibilidade de desfrutá-la, resta-me com meu próprio pincel acrescentar mais cores a essa paleta, a esse quadro, a essa obra de arte que meus olhos contemplavam.
Não gosto da palavra “estilososa” para me referir a alguém que se veste bem, mas é o caso dela, por falta de palavra melhor. Deveria ser pecado uma mulher se vestir mal. E, se eu tivesse criado o mundo, ela iria ao paraíso, porque sempre que a vejo está bem vestida, com distinção.
Visivelmente acompanha revistas de moda — ou nasceu com esse desvio genético tão raro e tão essencial nos dias de hoje: o bom gosto. Assim como eu.
Se eu combinaria mais com ela do que meu vizinho? Por respeito a ele, deixo o leitor responder. Mas tenho certeza de que saberia elogiá-la melhor do que ele: tanto pela beleza do gesto da leitura quanto pela cena anodina do dolce far niente — ler, enquanto toma sol e escuta música na varanda, oferecendo deleite a quem observa e inspiração para este meu texto.
Outra que se precipitou foi a princesa casada com o filho do mercador local — sobre quem já escrevi.
Agora está aprisionada em seu castelo, que nem tem o charme de ser de vidro, como nas fábulas e contos encantados. Seus cabelos não são longos o bastante para que um príncipe a liberte, e nem se permite mais o deleite de ir à academia. Esquece-se de seu cotidiano, de si mesma, e me vê treinar.
Deve ter sido uma imposição patriarcal do marido — esse Menelau que mal sabe que Paris está sempre à espreita.
Para falar a verdade, não tenho muita consideração por ele. Eu era amigo do irmão dele no colégio, apenas isso.
É verdade que ela é morena, menos bela, elegante e distinta (e nunca a vi lendo) do que minha vizinha da frente. Agora que não faz academia, está menos magra também.
Elas têm a coincidência de ambas terem escolhido mal seus maridos, trocarem olhares dissimulados e oblíquos de Capitu com este humilde escriba — e de morarmos na mesma rua.
Serão tolices minhas, como na bela música do Ira?