
Maffesoli tem um livro chamado A Parte do Diabo. Sua tese central é que, após a queda do fascismo, do nazismo e das grandes narrativas modernas, o mundo foi sequestrado pelo império da técnica, como já diagnosticava Heidegger, e pela mediocridade dos “últimos homens”, denunciados por Nietzsche.
Esse sujeito reduz a vida a valores mínimos — segurança, paz, conforto —, mas não mais a valores superiores, transcendentes ou espirituais.
A fé se esvazia. A cultura se fragmenta. O transcendente cede lugar ao imediato. E o que nos sobra? Apenas a parte do diabo.
Mas o que é essa “parte do diabo”? Para Maffesoli, ela não é necessariamente o mal no sentido teológico clássico. É antes aquilo que sobra quando o céu se fecha: a terra, o corpo, o desejo, o prazer. São os valores que se enraízam no chão, nos instintos, no gozo, na carne — prazeres hedônicos, e não mais eudaimônicos.
Na Grécia antiga, a felicidade (eudaimonia) era pensada como alinhamento com o cosmos, como harmonia com a ordem universal. Hoje, no entanto, restam apenas fragmentos desse ideal. O que se afirma é o prazer imediato, sem telos, sem cosmos, sem sentido transcendente. É aqui que a parte do diabo se manifesta.
Em um texto anterior, quando falei da conexão com o lado demoníaco, fiz alusão à possibilidade de uma síntese dialética impossível entre a disciplina atlética e os prazeres hedonistas: o uso de drogas recreativas, o álcool, experiências químicas que parecem necessárias para suportar a banalidade das pessoas e do mundo.
Talvez o LSD empreste as cores que faltam à vida. Talvez o álcool suavize a monotonia da convivência. Essa é, em certo sentido, a parte do diabo.
Mas não nos enganemos: essa síntese é absurda quando se pretende uma vida de alta performance, disciplinada, saudável, voltada para a longevidade. A parte do diabo sempre cobra o preço da queda.
No pensamento cristão, o diabo não está muito interessado em quais drogas você consome, em suas práticas sexuais, na sodomia, no sexo oral sem camisinha, no ménage ou no histórico secreto dos seus sites pornográficos.
A verdadeira ordem do diabólico é tudo aquilo que aparta o homem de Deus.
Tudo que o afasta do caminho da Verdade, como diria o pensamento cristão, está na esfera do diabolon — aquilo que divide, que separa, que desvia.
Nietzsche também escreveu sobre isso, em seu livro O Anticristo. E como todo filósofo, era incoerente. Ora dizia que a religião era vulgar demais para merecer sua atenção, ora dedicava páginas inteiras a rebater o cristianismo, especialmente a figura de Paulo, a quem acusava de ter falsificado a mensagem de Cristo.
Nietzsche enxergava no cristianismo uma moral de rebanho, uma negação da vida, uma invenção que distorceu o vigor dionisíaco da existência. Nesse sentido, O Anticristo é um livro abertamente diabólico — não por exaltar o mal, mas por negar radicalmente o caminho de Deus como via única da Verdade.
Ele atacava Pascal, por exemplo, dizendo que seu pensamento o fazia mal fisicamente. Ao mesmo tempo, tinha plena consciência de que ao se colocar em confronto com gigantes como Paulo, Sócrates, Pascal e Kant, elevava o peso da sua própria filosofia. A humildade nunca foi a virtude predileta dos filósofos.
Veja: a filosofia sempre flertou com a parte do diabo. E sempre se ocupou da questão da salvação.
No início, a filosofia pretendia ser para todos, oferecendo respostas para a vida boa. Mas, contraditoriamente, quanto mais ela se refinava, mais inacessível se tornava. No auge criativo da escolástica, deixou de ser caminho de sabedoria e se tornou técnica, gramática, especialização acadêmica.
A vida boa, a salvação, a ética cotidiana ficaram sob encargo dos sacerdotes. A filosofia, em sua versão pura, foi se isolando nos claustros da academia — e sua parte do diabo, seu afastamento do real e do divino, permaneceu.
O que sobra, portanto, é a promessa mentirosa de que esse caminho conduz a um sentido eterno. No fundo, o que temos é apenas a experiência de uma vida efêmera aqui na terra — e talvez uma eternidade de ignorância, porque essa pode ser a unica existência possível.