× Capa Textos Áudios E-books Fotos Perfil Livro de Visitas Contato Links
DAVE LE DAVE
SIM, ELE MESMO
Textos

 

MINHA FASE TAXI DRIVER E TRUMPISTA

 



DAVELEDAVE.RECANTODASLETRAS.COM.BR

 



Meu filme predileto de Scorsese, com roteiro brilhante de Paul Schrader — que o tiraria da pobreza e o faria milionário — estrelando Robert De Niro como Travis Bickle, um taxista solitário, taciturno e notívago.

 

Justamente por viver à noite, Travis encontra o ambiente perfeito para prosperar como taxista em Nova Iorque. Ele é o americano comum. Certamente seria trumpista, democrata, reclamando da sujeira da cidade: “Se quer um conselho”, diz a um candidato à prefeitura, “alguém deveria fazer uma boa limpeza nessa cidade.”

 

Bem, Travis decide fazer a limpeza que não via os governantes realizarem.

 


 

O SOLITÁRIO DA NOITE

Travis é um solitário. Uma figura da noite. Fantasmagórico. Esquisito.

E justamente por isso nos lembra o que temos de mais normal: nossos preconceitos.

 

Não gostava dos gays.

Não gostava da promiscuidade da noite.

Não gostava da sujeira das ruas.

Não gostava das drogas.

 

Talvez por isso andasse sempre sozinho.

 

E, pela falta de traquejo, ao tentar flertar levou sua pretendente a um cinema privê. A afugentou. Só a reconquistou quando se tornou herói nacional — ao, com as próprias mãos, defender a prostituta mirim interpretada por Jodie Foster (que mais tarde enfrentaria outro sociopata, ou melhor, dois, em O Silêncio dos Inocentes).

 


 

A EDUCAÇÃO COMO DIFERENÇA

Em determinado momento, Travis, sabendo da sua missão de justiceiro, resolve se exercitar com calistenia: “Cada fibra do meu corpo deve responder. Cada músculo vascularizado.”

 

Bom, eu não sou Travis. Não sou trumpista.

Mas também percebo a sujeira, nas minhas caminhadas diárias, que não faço de táxi, mas a pé.

 

E, modéstia à parte, com todo respeito a De Niro, não dá para comparar meu shape com o de um ator carcamano.

 

O que me protege de ser justiceiro e eleitor de Trump é justamente o que falta a Travis e aos eleitores de Trump, Bolsonaro e da extrema direita: educação, capacidade intelectual, ensino.

 


 

O AMIGO QUE ME DESAFIOU

Meu amigo de infância, que tem afinidade comigo para fazer esse tipo de afirmação, porém não muita empatia e tampouco coerência, disse algo que talvez alguns de vocês pensem, hipocritamente, como irei demonstrar.

 

Eu disse que odeio voltar no mesmo trem que a torcida organizada do Palmeiras, porque eles destroem minha vibe positiva do jogo.

 

E ele me respondeu: “Que vibe? Você é um Zé Ninguém como eles.”

 

Posso até estar indo no mesmo sentido que eles, para a periferia, mas não somos iguais. Assim como Van Gogh e o marceneiro que fez o cavalete dele não são iguais.

 


 

CAPITAL CULTURAL, SUPERIORIDADE E CRUELDADE

Quem tem capital cultural, capital simbólico, tem poder.

Esse poder se converte em outros capitais, inclusive o financeiro.

 

Conhecimento é poder.

Te permite transitar pela sociedade, acessar maiores oportunidades, alcançar maior fluidez.

 

Quem não tem vive numa bolha.

Numa casca de noz cujo limite é seu próprio pensamento.

 

Quem conhece Platão, Schopenhauer, recita Shakespeare de cor, hierarquicamente, sempre, em todas as eras, em todas as sociedades, será superior a quem não sabe sequer conjugar o plural.

 

Por mais anticristão que isso pareça, a natureza se impõe: a realidade é cruel.

Até mesmo para o professor universitário, o médico, o empresário — muitas vezes utilitários e boçais.

 


 

O COMPORTAMENTO DE REBANHO

O que me difere dos eleitores de Bolsonaro e de Trump é SABER que o comportamento de rebanho da torcida organizada vai além da consciência individual.

 

Esse comportamento é moldado pelo habitus social.

A violência subjetiva, que irrompe em forma de agressividade e incomoda os demais passageiros, é reflexo de uma violência objetiva: a falta de ensino, de oportunidades, de capacidade de se desenvolver para além dos limites da periferia onde nasceram — e onde provavelmente morrerão.

 

Se “o homem é ele e suas circunstâncias”, ele não escolhe nascer pobre. Mas talvez permanecer a vida inteira pobre seja, sim, culpa dele.

 


 

A SOCIEDADE HIPÓCRITA

Hipocritamente, meu amigo — e vocês, leitores — a sociedade acusa quem ousa viver com leveza no ser, chamando com os adjetivos mais pejorativos.

 

Mas não olha para si.

Não vê que o carro que dirige foi comprado pelo avô.

Que o ensino veio da família.

Que o apartamento foi herdado.

 

Na verdade, fizeram muito pouco com a sorte de suas circunstâncias.

Viveram uma vida pouco autêntica, sempre à sombra do fantasma de seus próprios pais.

 

ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL)
Enviado por ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL) em 25/09/2025
Comentários