
Na madrugada do meu aniversário, vi uma série de comentários no Recanto das Letras de um mesmo perfil anônimo me culpando por sei lá o quê. Confesso que não entendi direito, porque estava com sono. Mais tarde, quando entrei de novo no perfil, a pessoa já havia deletado tudo.
Os comentários faziam referência a eu ter “enganado” essa pessoa — sabe-se lá quem. Uma leitora que interpretou arbitrariamente que meus escritos são dirigidos a ela. Sendo que de anônimo ou pseudônimo eu não tenho nada.
E de mentiroso, só tenho a falta de talento mesmo. Porque honesto eu sou até demais: falo dos meus casos amorosos, das minhas vivências pessoais, posto fotos minhas quase diariamente, até de familiares. Transparente, impossível ser mais.
Não sei se ela funciona para todos, mas eu sou adepto da escritoterapia. Não com o intuito de receber alta ou diagnóstico, mas por pura necessidade.
Leminski dizia que os poetas são aqueles que têm um desvio no código genético e, com isso, produzem beleza através da linguagem.
Quando jovens, todos somos poetas. Mas mais tarde chegam as ambições: consumo, carreira, a pressão social que nos pergunta o que fazemos da vida. Dizer “sou poeta” passa a soar como dizer “sou vagabundo”.
Hoje, chega a ser pejorativo, sinônimo de maconheiro. Eu digo: aos 11, 12, 14 anos, todo mundo é poeta. Mas fazer poesia aos 25, 40, 60 — como Drummond — é coisa de profissional, não de amador.
Leminski ainda dizia que todo país ama seus poetas. Mas isso era antes da internet.
A internet deu voz aos idiotas, como previu Humberto Eco. Chico Anysio percebeu isso cedo. Ao entrar na internet, disse:
“Nossa, antes eu achava que era amado pelo Brasil. Descobri que sou visto como um grande vagabundo.”
São os idiotas de visão curta, que odeiam cultura, atacam a Lei Rouanet, e são como o general franquista: quando ouvia falar de cultura, sacava o revólver.
Ser velho não é sinônimo de sabedoria. Às vezes, a velhice só enraíza crenças idiotas: negacionismo, culto da produtividade, preconceitos.
Muitas dessas ideias vêm da própria família. Minha mãe, por exemplo, não entende onde quero chegar andando tanto. Um dia me chamou de Alice: “quem não tem caminho, qualquer lugar serve.”
Ela tem a visão de carreira moldada pelo concurso público, faculdade, estabilidade, igreja e comunidade. Só que o mundo mudou. Nada disso adianta sem espírito. E é justamente o espírito que faz gozar da vida — o que Nietzsche chamava de “a grande saúde”.
Meu irmão tem só 9 anos a mais que eu. O que gasto com lazer e meu dolce far niente, ele gasta em dobro com remédios para colesterol e pressão. Um homem bom, que nunca bebeu, nunca fumou — apenas sedentário e trabalhador.
Eu, ex-dependente, encontrei outro caminho. Hoje, com minha rotina, minha saúde é privilégio de uma minoria.
Ontem, no Allianz Parque, percebi o quanto isso é real. Entre 41 mil pessoas, eu era certamente o mais elegante, o mais culto, e ironicamente, talvez o que mais entendia de futebol — até mais do que os treinadores.
Também um dos mais saudáveis, com músculos vascularizados, acima da curva de Gauss dos presentes. Essa rotina de estudos e atividade física reflete não só em mim, mas também na influência que posso ter na comunidade e nos mais jovens.
Escrevi sobre ela em uma crônica passada. Sempre a encontro no estádio, acompanhada do pai e da família. Pelo sotaque, é nordestina. Mesmo tão jovem, ama intensamente o Palmeiras.
No último jogo, o estádio meio vazio, ela fez questão de sentar perto de mim, mesmo com tantos assentos livres. Não sei se por acaso ou de propósito. Talvez tenha se impressionado ao ver alguém bem-vestido, sozinho, feliz, desfrutando do jogo.
E se, ao me observar, ela crescer e levar esse tipo de referência de comportamento, de educação, de postura? É isso que quero imprimir nos outros: desde uma garotinha no estádio até adultos que me leem.
Algumas mulheres no Recanto olham minha página como se fosse um jardim encantado, cheio de fadas e duendes. Guardam a esperança de que eu possa oferecer algo que não tenho como dar. Isso é o platonismo: sentimento que existe só no mundo das ideias.
Mas as ideias são importantes justamente para avaliarmos os outros. Eu mesmo me sentiria péssimo se fosse comparado ao modelo ideal de uma mulher e fosse considerado medíocre.
E a noite terminou com a clássica do palmeirense no meu aniversário: vitória do time.
Na entrevista pós-jogo de Abel Ferreira, ele falou uma frase que Leminski assinaria embaixo, sobre casamento e sua relação com o Palmeiras — outra vez usando a metáfora da área atlético-esportiva:
Um casamento perfeito é feito de duas pessoas imperfeitas que conseguem se entender no limiar de suas imperfeições. E é esse tipo de casamento que procuro por quem me lê. Só não confundam as coisas.