
Hoje é conhecido como o Natal em plena primavera, porque há exatos 34 anos atrás eu nascia, bem prematuro.
Há uma certa magia em bebês que nascem prematuros, um sentido de urgência, como quem diz: eu não quero mais ficar aqui dentro nesse lugar fechado, eu preciso ver logo o que tem do lado de fora. Uma lenda atribuída a Dionísio, deus associado ao prazer e ao vinho, conta que ele teria nascido sorrindo em vez de chorando. Eu tenho a percepção de que o mesmo talvez tivesse ocorrido comigo.
A minha vontade de fazer questão em nascer em setembro, na primavera, e não antes, nem depois, em outubro, é quase uma recusa a outro destino. Eu tinha de respeitar o mês 9 — número de tantos artilheiros no futebol.
E ainda 24, um dia antes do 25. Afinal, nascer no dia 25 poderia ser uma heresia.
Mas é um grande alívio fazer 34 anos. Eu achava que, aos 33 — idade mística — alguma coisa ruim iria acontecer, assim como ocorreu com Jesus.
E depois de ter superado também a idade maldita dos 27, aquela em que tantos sucumbiram, chegar até aqui é quase uma vitória secreta. Quem viu os primeiros meses dos meus 33 anos, sabe: eu quase tive êxito em culminar num fim trágico.
Mas hoje, aos 34, tenho tudo que preciso: saúde e conhecimento. E dessas duas coisas provêm todas as outras. São as minhas muletas para a existência, não metafísicas, mas humanas — demasiadamente humanas.
Eu tenho um diagnóstico, de dependência química. Mas não me escoro nele como muleta, como destino. Isso seria agir com má-fé sartriana.
Nossa única condenação é ser livre.
E todas as minhas decisões no presente são movidas por dois motores: medo e amor.
Medo de repetir os mesmos erros do passado. Medo de não ter saúde. Medo de voltar a não ter condicionamento físico. Medo de ser aquele David de antes: sedentário, resignado, derrotado.
E amor. Amor pelo conhecimento, pela arte, pela cultura, pelas minhas paixões, pelo Palmeiras, pelo cinema, pela literatura, pelo esporte. Amor, etc., etc.
Eu não amo estudar. Mas amo aprender.
Talvez eu não ame musculação. Mas amo ter força, boa forma física, vitalidade.
Por isso, caminho três horas consistentes todos os dias, no mínimo. E durante esse tempo estou aprendendo algo: escutando aulas, ouvindo músicas, tendo ideias.
É nesse comportamento que deposito minha aposta: a de que daqui a dez anos, aos 44, estarei escrevendo outro texto — seja no Recanto ou em qualquer lugar que eu estiver — e nele reconhecerei a minha melhor versão.