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DAVE LE DAVE
SIM, ELE MESMO
Textos

 

MINHA VIZINHA TENTOU SE MATAR

 



DAVELEDAVE.RECANTODASLETRAS.COM.BR

 



SETEMBRO E O MUNDO

Setembro, além de ser o mês mais lindo do ano — conhecido mundialmente por seu quase outro Natal, o nascimento de um outro deus (euzinho), que faz aniversário amanhã — mês da primavera do Brasil, também é o mês de prevenção ao suicídio. Aliás, se você está pensando em dar cabo da sua existência ou conhece alguém nessa situação, não onere o sistema de saúde e o Estado: antes, ligue 188. O governo não tem nada a ver com os seus problemas.

 


 

O CASO DA VIZINHA

É o caso da minha vizinha, que já há tempos não andava bem de saúde — reflexo também na sua saúde física, que denunciava seu aspecto debilitado, inchado.

 

Bem verdade que o limiar entre o sadio e o patológico é tênue, como já mostra o conto O Alienista, de Machado de Assis. Na figura de Bacamarte, que montou o primeiro sanatório na cidade, percebeu que todos tinham algum tipo de patologia e, no final, chegou à conclusão de que o maior louco, afinal, era ele próprio. Então é preciso muita humanidade para olhar o próximo e, ainda mais, para acusar.

 

Nem mesmo essa vizinha — típica fofoqueira de bairro, que mais falou de mim e até me espionava para saber onde eu ia, escondido, na época da adicção, para contar à minha mãe e espalhar para as vizinhas — merece que eu use este texto para exercer o espírito de vingança e dizer: “tá vendo?”, “olha só o que acontece com quem acusa”. Eu estaria me igualando ao que há de pior nos meus inimigos. Agora é hora de apenas relatar os fatos e se solidarizar, como o menino que observa Malena, a prostituta promíscua em Malèna, de Giuseppe Tornatore.

 

Essa vizinha, assim como no conto do Alienista, sofria da patologia da mania das pedras — como Bacamarte chamava quem tinha a mania de ficar construindo coisas niilisticamente, sem nunca chegar a um fim último. O grande entusiasmo dela era aumentar a casa, em puxadinho após puxadinho, e com isso causar transtorno aos vizinhos, com a poeira e o barulho.

 

Mas, de certa forma, a culpa é dos meus pais, já que aceitaram que ela fizesse a casa colada com nosso muro, quando o correto seria que construísse do lado oposto. Eles não tinham como prever que tipo de vizinhos seriam: barulhentos, despeitosos, intrusivos. No final, ainda compraram cão, colocavam música alta e cuidavam de crianças que faziam muito barulho.

 

Toda falta de respeito que um vizinho pode ter com outro eles tiveram conosco. Convenhamos: pelo padrão brasileiro poderia ser pior — mas muito pior. O marido dela, que na verdade é primo dela, também foi alcoólatra; porém, desde o nascimento da filha mais nova se regenerou e nunca mais voltou a beber, envergonhado.

 

Agora a vizinha e suas filhas só ficavam fofocando o dia inteiro e cuidando da vida dos outros, e o aspecto doentio mental delas se refletia na aparência. Ela estava cada vez mais inchada. Até que houve um dia em que ela surtou: chamou a filha de “puta” — não sei se com razão ou não; acredito que sim — espumou pela boca, quis bater no marido, e foi internada. Não aceitou o tratamento e fugiu. As filhas se mudaram e não quiseram mais contato.

 

E até que agora, em agosto, mês do caos, ela dispensou as crianças da escola, foi até a linha do trem, colocou-se de frente ao trem, mas não teve êxito no seu objetivo de desistir da existência: sofreu diversas fraturas.

 

Ela ligou para minha mãe, não admitindo os fatos — apenas disse que teve um ataque de pânico, mas que ao menos não fez nada com as crianças. Mas, para um bom entendedor, meia palavra já é suficiente.

 


 

INSTINTO DE MORTE E PENA

Ataque de pânico pode acontecer até em pessoas “normais”. Não é um estado constante. O que ela tem e teve é o instinto de morte que, lentamente, foi se apoderando do instinto de vida, gradativamente, até tornar-se totalmente preponderante — a ponto de ela decidir abreviar sua existência. Talvez ela não tenha conseguido por mera falta de capacidade; mas também pode ter sido falta de convicção: de algum modo, uma centelha despertou nela o instinto de vida, tentando sobreviver.

 

Eu fico com pena, mas especialmente do marido dela, que é uma figura pacata. Ele tem a rotação meio baixa, baixa capacidade cognitiva; é fraco, franzino, e se ela voltar a surtar, pode machucá-lo gravemente.

 

Porém o suicídio — ou melhor, a vida em si — como diria Camus, pode ser a questão mais séria da existência: se vale a pena ser vivida ou não. Isso me causa muita preocupação.

 

Torço muito pela breve restituição da saúde física e mental da minha vizinha, para que isso se reflita numa melhor condição para ela, para o marido, para a família e para toda a comunidade em geral.

 

 

ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL)
Enviado por ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL) em 23/09/2025
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