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DAVE LE DAVE
SIM, ELE MESMO
Textos

 

TODA UMA VIDA NÃO VIVIDA AO SEU LADO

 


DAVELEDAVE.RECANTODASLETRAS.COM.BR
 



O JOGO DA VIDA

A vida é um jogo de probabilidades, como o pôquer. Vivemos como quem faz apostas — umas mais certas, outras menos —, como em jogadas de pôquer.

 

Georges Bataille chamava isso de “vontade de chance”, uma readequação do conceito nietzschiano de vontade de potência.

 

E no que apostamos? Apostamos numa vida boa, apostamos na felicidade, apostamos na nossa melhor versão. Ninguém quer ser mais triste, ou pior, ou mais malogrado.

 

E como em um jogo, na vida é preciso sorte: Maquiavel chamava a sorte de fortuna, que é o destino. E virtù é a habilidade do jogador — do vivente — de apostar suas fichas, de jogar diante das probabilidades que lhe cabem, para que os resultados sejam os mais favoráveis possíveis a seu favor.

 

Mas nem sempre isso acontece.

 

Foi assim que surgiu o estoicismo. Zenão perdeu tudo que tinha no navio e, depois desse feito, descobriu que a verdadeira sabedoria de viver estava no conhecimento.

 

Crisipo é personagem de uma história curiosa: um cão comeu seus figos. Em vez de se irritar, ele deu uma sonora gargalhada e ainda mandou servir vinho ao cão, para harmonizar melhor com os figos.

 

Só houve um problema: o acontecimento o divertiu tanto que ele riu sem parar, se engasgou e morreu.

 

Ora, para alguns, a morte pode ser interpretada como tragédia. Para outros, como estúpida. Para outros ainda, como deliciosa.

 

Fato é que a morte foi o que foi: um dado inexorável, incontrolável, necessário. Ela não leva em consideração nossas ações, se eram justas ou injustas. Elas são o que são.

 

E o estoicismo é sobre isso.

 


 

O QUE ESTÁ AO MEU ALCANCE

É burrice eu focar no que não está no meu controle — o destino, o exterior. Isso eu não domino.

 

Mas posso controlar as minhas ações.

 

O estoico é aquele que não se deixa abalar por um acontecimento. Diante de algo que poderia ser negativo ou trágico, ele volta ao seu ponto inicial, não se abala, mantém seu comportamento basal ou até transforma o fato em experiência para se tornar mais forte.

 

É o que chamamos de resiliência: a capacidade de um material de retornar ao seu estado original sem deterioração, ou até de se tornar mais forte após a pressão do mundo.

 

Pois tudo esta em constante mudança, como o rio de Heráclito.

 


 

O MUNDO DA TÉCNICA E O MUNDO DO INÚTIL

E nada retorna por acaso.

 

Hoje o tema do estoicismo voltou à tona porque ele serve ao mundo da técnica — como Heidegger chamava o mundo do capitalismo. O mundo dos resultados, das metas, do lucro sem objetivo maior.

 

O capitalista suga a energia do funcionário como uma laranja, e quer que, resiliente, ele volte a produzir mais suco exatamente como antes gerando mais lucro.

 

Mas essa energia não precisa ser entregue apenas ao mundo da técnica, ao mundo do capital. Ela pode se voltar para aquilo que o transcende: o mundo do inútil.

 

A arte, o amor, a cultura, a poesia, o cinema, a literatura.

 

Paradoxalmente inúteis, mas sem preço. Pois é exatamente isso que nos torna humanos e não apenas animais: a capacidade de criar esses adventos.

 


 

O AMOR INÚTIL

O amor de dez anos que nutro pela mesma pessoa — esse amor inútil, sem gozo, sem fluir — quase um terço da minha vida, pode ser tudo, menos leviano ou falso.

 

Como disse: eu não consigo simplesmente, por força de vontade, viver esse amor. Mas posso conquistar minha melhor versão para ser capaz de vivê-lo.

 

É claro que eu preferiria gastar minha energia não em atividades físicas, mas com ela, na cama. Cada repetição e gota de suor dos meus abdominais eu preferiria ver escorrendo sob o lençol com ela — ou melhor, sem lençol e sem cama, para não atrapalhar o fluxo dos movimentos.

 

E devo dizer: pela minha condição física, minha performance seria bastante satisfatória.

 

Mas isso não controlo.

 

A hipertrofia, sim, eu controlo.

A vascularização, sim, eu controlo.

A saúde cardiovascular, sim, eu controlo.

E, mais importante, meu pensamento, minha capacidade estética, meu ser-cidadão. Isso eu controlo.

 


 

O PESO DA SOLIDÃO

É claro que cultivar-se a si mesmo e ao espírito gera solidão.

 

Drummond fala disso — não lembro se em poema, crônica, livro ou entrevista. Mas sei que fala sempre sobre solidão e amor. Esses são seus principais temas. E também o cinema, e Carlitos, que ele adorava. Assim como eu.

 

Acho que a condição basilar pra ser poeta é sofrer de amor.

 

Eu sei sofrer de amor. Só me falta a capacidade de traduzir esse sofrimento em versos bonitos.

 

 

ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL)
Enviado por ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL) em 21/09/2025
Alterado em 22/09/2025
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