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DAVE LE DAVE
SIM, ELE MESMO
Textos

 

EU SOFRO DA DOENÇA DA BELEZA

 


 

DAVELEDAVE.RECANTODASLETRAS.COM.BR

 



A MALDIÇÃO DA PERFEIÇÃO VISUAL

Há um filme de Mario Bava, possivelmente ao lado de Dario Argento — o grande mestre italiano do horror — sobre um assassino que sofria de uma patologia peculiar: tornava-se insano diante da beleza. A simples visão do belo desencadeava nele uma espécie de êxtase violento, que o levava a cometer barbaridades. No filme, a beleza não é apenas estética; é catalisadora da loucura, e a tese do livre-arbítrio é radicalmente contrariada por essa obsessão. A narrativa mergulha o espectador num dilema perturbador: até que ponto somos donos de nossas ações quando confrontados pelo poder do belo? (O filme em questão poderia ser La Frusta e il Corpo, ou A Girl Who Knew Too Much, dependendo da leitura crítica do período barroco do cinema de Bava, onde o colorido, a sombra e o contraste visual potencializam o horror psicológico.)

 

Eu, de forma semelhante, sou extremamente suscetível à beleza. Ela me causa um estado de euforia intensa. Diante do belo, fico agitado, começo a andar de um lado para o outro, gesticular. Muitas vezes tenho que parar o que estou fazendo e canalizar a ideia que a beleza provocou em algo criativo. Como um dessassossego positivo, a ideia do belo aumenta inegavelmente minha potência. Um belo texto, a simetria de um objeto, a pureza de uma forma, a limpeza de uma composição — tudo isso me desperta uma energia visceral.

 

E não podemos cair na idiotia de associar pureza ou beleza a eugenia ou supremacia racial.

 


 

NEVE, CORPO E VIDA

Há elementos fisiológicos dessa de cor branca que podem ser prejudiciais ao organismo, mesmo diante do belo. Por exemplo, a música “Snow (Hey Oh)” do Red Hot Chili Peppers evoca neve e, subliminarmente, pode remeter à cocaína. No capítulo mais intenso de A Montanha Mágica, de Thomas Mann, Hans Castorp quase sucumbe ao frio branco da neve, mas sobrevive pelo instinto vital: o desejo de viver. O livro inteiro é sobre o equilíbrio entre a morte e aquilo que a transcende: o amor, a arte, o aprendizado, a cultura.

 

O próprio Mann declara que a beleza é uma forma de pensamento. No seu livro, o belo equivale a pensar bem. Não há distinção entre o belo e o raciocínio elevado. Daí decorre a conclusão óbvia: a arte e o pensamento são manifestações da beleza.

 



O TERROR QUE NÃO SUPORTO

Por outro lado, Suspiria, de Dario Argento, outro mestre do terror, é um filme que não consigo assistir. Não suporto filmes de terror com cenas graficamente impactantes. É irônico para um cinéfilo. Assino o Mubi, mas a maior parte do catálogo é impossível para mim; como o elogiadíssimo A Substância. Até sei o que escrever sobre o filme, mas não consigo experienciar a película em si.

 

Contudo, por ser cinéfilo e maior de 18 anos, acabo assistindo a algumas cenas muito fortes. Lembro da sequência em que um personagem tem o pescoço cortado, em Caché de Haneke, e um espectador desmaiou na sala. Ou em Fita Branca, um drama pesado, mas que fez o público sair do cinema comentando que era um filme de terror.

 

Para mim, o terror psicológico não incomoda — ele é necessário. Um exemplo magistral é O Pequeno Quinquin, de Bruno Dumont: uma comédia de humor negro, colorida, mas também um filme policial que narra coisas horríveis. Essa tensão entre o dionisíaco e o apolíneo é a essência da tragédia grega, como Nietzsche chamaria de “grande estilo”.

 


 

A ESTÉTICA DA MALDADE E DO BELO

Acredito que minha incapacidade de assistir filmes ruins, sangue na televisão, sujeira, coisas feias, é uma reação instintiva do meu corpo à maldade do mundo. Meu organismo não tolera o que é feio ou mau. Mas o belo provoca uma resposta positiva.

 

Escrevo sobre os filmes mais polêmicos da história. Adoro o underground, o independente, mesmo sem ter coragem de assistir à maior parte deles. O que importa é que existam, e lutarei enquanto existir para que eles continuem a existir.

 

Meu pseudônimo é uma homenagem a Bruce LaBruce, diretor independente conhecido por filmes LGBTQIA+, como O Advogado do Viado e Otto. Jamais verei seus filmes, mas admiro sua coragem e adaptei seu pseudônimo como inspiração.

 

Adoro Gaspar Noé; conheço, assisto aos filmes e sou admirador de sua obra. E Cassavetes, onde tudo começou, com filmes como Sombras ou Uma Mulher Sob Influência. Pasolini também marcou minha trajetória, embora o filme mais pesado que assisti tenha sido Teorema.

 

Quando faço o elogio de um diretor como Todd Solondz, em Felicidade (Happiness), que aborda pedofilia, ou de Larry Clark com Harmony Korine em Kids, que fala de AIDS e da promiscuidade da juventude perdida da periferia, é claro que não são filmes agradáveis de se ver, que vão aumentar sua potência estética como um Amélie Poulain. Mas o que é bonito é a ideia, a coragem, a vontade de potência do idealizador de denúncia, que, através da arte, desafia um determinado status quo e até deseja mudá-lo. Porque o telespectador nunca é inocente.

 

É por isso que um Salò de Pasolini choca, mas é necessário, ao denunciar o fascismo. Ou Pink Flamingos, de John Waters, ao mostrar a subcultura do mundo das drogas e das drag queens de maneira satírica e corajosa. Aqui estamos no mundo das ideias, não das aparências — que são sombras.

 

O mictório de Duchamp não é apenas um objeto exposto; é o absurdo da função deslocada. Quem não entende isso não compreendeu a arte, nem o valor subjetivo e relativo da beleza.

 

 

ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL)
Enviado por ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL) em 20/09/2025
Alterado em 20/09/2025
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