O cotidiano sempre alimenta quem escreve com material através dos seus absurdos.
Há um branquelo na academia que frequento, que talvez seja personal trainer, sei la, daqueles que não se distinguem em nada. Sabem, aqueles na média da curva de Gauss: músculos médios, flácidos e sem vascularização.
É claro que o fato de o cara não ter “shape” não diz nada sobre sua capacidade. Mas nossa sociedade é preconceituosa por instinto de sobrevivência. É difícil de confiar num cardiologista que fuma, num nutricionista obeso ou num personal trainer acima do IMC, sem forma física alguma.
Agora, se eu vejo que o cara faz dieta, tem os músculos vascularizados, posta nas redes sociais artigos científicos e, nas horas vagas, ainda lê literatura… porra, eu quero esse cara trabalhando comigo.
Mas isso é para quem precisa de personal. O personal empresta sua força de vontade para quem não tem por conta própria. Para mim, ele estraga o que há de melhor no processo: o aprendizado, a pesquisa, começar do zero, evoluir, caminhar com as próprias pernas.
Esse branquelo dos músculos flácidos andava com uma novinha que, pela diferença de idade, minha ingenuidade queria acreditar que fosse sua filha ou parente. Talvez até a polícia federal também queira acreditar…
Mas hoje ele foi acompanhada por alguém que parecia colega da sua “filha” ou “irmã”. Para minha surpresa, vi aquele tio beijar a garota que parecia ter idade para ser sua filha.
Questões éticas à parte, eu quero falar mais do mau gosto. A garota, sim, estava em forma, mas era pelo menos uns quinze ou mais anos mais nova. Talvez vinte. Espero que seja maior de idade.
Impossível não lembrar de Nabokov sorrindo no túmulo diante da cena dessa ménage improvável e, quiça, incestuoso, do branquelo. A diferença saltava: ao lado dele estava eu — aparência jovial, músculos vascularizados, percentual de gordura abaixo de 10%, e os olhares oblíquos de Capitu das mulheres, mesmo acompanhadas, incapazes de dissimular diante de mim treinando.
Mas falando sério, tudo isso é aparência, informação visual. E não é recalque meu não, amigos… Como vocês sabem, eu não me envolvo com garotas do meu bairro. Para mim, é difícil me relacionar com uma garota para além de uma noite.
Se eu a adiciono no WhatsApp, ela não sabe escrever, e eu me desinteresso.
Se tenta ocultar sua negligência gramatical mandando audio, perco o interesse ao intuí-la.
Se, por milagre, tiver algum estudo, no dia a dia revela sua banalidade — e, com o tempo, eu me desinteresso.
É como o pêndulo de Schopenhauer: entre o tédio que o desejo causa e a frustração do desejo realizado, representado pela banalidade de quem o satisfez.
Não há corpo no mundo, nem beleza alguma de mulher, que sustente sua banalidade.
Eu vejo de longe os caminhos que meu “eterno amor” tomou através dos seus rastros, de suas amigas, de seus amigos. O resultado é o esperado, e desesperador. Mas ainda pior do que eu esperava.
O nível dos companheiros que suas companheiras arrumaram no seu meio… Médicas que se formam despreparadas, sem saber se expressar além de emoticons, sem saber escrever, sem dominar a gramática básica.
Porque a universidade privada passa quem ameaça não pagar a mensalidade. Forma um monte de profissionais medíocres, que, uma vez formados, não se atualizam, não estudam, não aprendem a gostar do estudo.
Escutei de um médico que colava nas provas de literatura (homeopata, obeso, claro) e que nunca entendeu ou sequer se importou com Machado de Assis. Procurava resumos.
Por isso, alguns não sabem que a única coisa que cresce no futuro dos pretendentes dessas pessoas é a barriga. Mesmo ganhando bem, são mais proletários do que muitos trabalhadores fordistas. Trabalham mais do que recebem, porque a alma é pequena.
Então eu olho para esse meio do qual ela faz parte.
Meu bem, quem fez a sua parte fui eu — de alcançar, ou ao menos tentar (porque esse é um projeto nunca conquistado), a minha melhor versão.
Porque não é fácil ser mulher. Ou o homem é muito burro, ou gordo, ou banal. Pelo menos que tenha a mesma profissão, a mesma casta social, e que seja um homem “bom”.
Como o homem “bom” do poema de Brecht.