
Parece que o jogo finalmente virou: até filósofos estão fazendo comerciais (apesar de serem péssimos atores). Pondé e Karnal, a serviço do capital, falam mal dos livros de autoajuda. De um lado, ganham dinheiro criticando justamente aquilo que esses livros prometem: ensinar a ganhar dinheiro.
No caso, a autoajuda é mais útil para o autor que a vende do que para o leitor. Sempre foi vista como senso comum — portanto, como o oposto da filosofia. Nesse ponto, há coerência.
Mas alguns best-sellers de autoajuda vão além de fórmulas milagrosas aplicáveis a todos. Eles oferecem informações. E informação, como a neurociência mostra, nada mais é do que memória em formação: a aquisição de novos registros pelo cérebro.
Livros como O Poder do Hábito ou Mindset, de Carol Dweck, se bem explorados, podem mudar comportamentos. Para quem souber extrair, os relatos de caso tornam-se sementes de novas memórias — e memória é o que molda quem somos.
No cérebro, o local do hábito é o mesmo do vício. O vício é apenas um hábito negativo. O hábito positivo, por sua vez, é o que chamamos de excelência.
E a excelência não é extraordinária: ela é mundana, banal, simples. É fazer o simples de maneira consistente. É o ordinário que, repetido, transforma-se em algo maior.
Há gênios extraordinários intelectualmente, mas disfuncionais em seus hábitos. Quantos morreram de overdose, deixando obras inacabadas? Quanto filósofos da mansarda, como em A Tabacaria, de Pessoa, escreveram filosofias que nenhum Kant escreveu, mas viveram extraordinariamente em seu anonimato grandioso?
Raskólnikov tentou estabelecer a diferença entre o homem ordinário e o extraordinário. Se colocou como alguém acima do bem e do mal, justificando o assassinato hediondo em Crime e Castigo. O crime, mal planejado, negou sua própria teoria e ceifou duas vidas inocentes. Resultado: doença e desespero.
Já Sônia, a prostituta que vendia o corpo para sustentar a família, era extraordinária em sua pureza.
Platão, no livro II da República, narra o mito do Anel de Giges, contado pelo irmão de Glauco. Giges era um pastor que encontrou um anel capaz de torná-lo invisível. Ao descobrir o poder, seduziu a rainha, matou o rei e assumiu o trono.
A reflexão de Platão é direta: se qualquer homem pudesse agir sem ser visto, faria o que é justo ou simplesmente seguiria seus desejos mais obscuros?
Aqui está o ponto. O extraordinário não é o que se mostra diante da plateia. É o que se faz no segredo, na invisibilidade. O verdadeiro caráter se revela não quando todos olham, mas quando ninguém vê. O que você faz “invisível” — isso, sim, é o que influencia.
Steve Jobs aprendeu com o pai marceneiro a colocar madeira de qualidade até nas partes do móvel que ninguém veria.
Mais tarde, obrigou engenheiros da Apple a projetar cada componente com simetria e beleza invisível ao usuário. O ordinário se transformava em extraordinário porque a ética do detalhe invisível imputava uma marca.
Jobs revolucionou a indústria dos computadores, da animação, da música, dos telefones, do design. Apesar de seus defeitos — narrados por Walter Isaacson —, o que o torna extraordinário é a capacidade de traduzir um universo polifônico de ideias em algo novo.
Como em Bakhtin, o gênio não está no excesso, mas na preocupação com o essencial. Com aquilo que é invisível aos olhos.
Meu sobrinho, de apenas cinco anos, diagnosticado com autismo leve, está no pré e começando a escola. Ele tem suas dificuldades, mas já carrega um gesto extraordinário: folheava um livro mais grosso que os últimos três presidenciáveis jamais ousariam ler.

Brinquei com meu irmão: eles não leram nem um terço disso.
Esse é o tipo de comportamento que eu gostaria de influenciar. Que as pessoas ao meu redor me vissem e desejassem, não escrever bobagens em redes sociais, mas abrir o bloco de notas e elaborar um texto. Que, em vez de dirigir bêbadas, pegassem uma garrafa d’água e fossem caminhar. Que lessem. Que vissem bons filmes. Que estudassem.
Mesmo que banais, mesmo que ordinários, esses hábitos poderiam transformar vidas. Talvez, um dia, até façam comerciais — ainda que como péssimos atores.