
DAVELEDAVE.RECANTODASLETRAS.COM.BR
Todo intelectual, por obrigação, tem que conhecer mitologia grega. E eu, por falta de melhor definição, sou um intelectual — alguém que, na maior parte do tempo, se dedica a atividades intelectivas.
A mitologia de Hesíodo e Homero permite entender a teogonia, a origem dos deuses e do universo.
E toda filosofia e história do pensamento têm como origem primordial a mitologia.
Um dos primeiros deuses era Eros, que representa a energia libidinal, conceito posteriormente elaborado por Freud.
Em Platão, Eros é chamado de amor: amor pelo conhecimento, que nasce da falta — e é justamente essa falta que nos impulsiona a buscá-lo.
No princípio, há consenso entre praticamente todos os filósofos de que a essência que eles chamam de Eros é uma só: a libido, a energia sexual. Freud diria que é a mesma força que nos impulsiona para a vida. Espinosa a chamava de potência de agir; Nietzsche de vontade de potência; Deleuze, de máquina desejante.
E essa mesma energia, paradoxalmente, deseja o seu contrário: retornar ao estado natural de não vida, de inatividade. Freud chamou isso de impulso de morte. Assim, vida e morte disputam entre si a força dentro do corpo humano.
Tolstói traduziu melhor esse conceito com um tom espiritual: “Deus e o Diabo estão em luta, e o campo de batalha é o coração do homem.”
Dou o exemplo da minha própria vida para ilustrar.
Sou totalmente extemporâneo, fora do meio, atípico ao contexto — e ainda assim fruto dele. Não seria quem sou sem as experiências de vida, sem ter nascido onde nasci.
Se não fosse a influência da minha família, da leitura, da cultura desde cedo, do trabalho precoce e de ter crescido em São Paulo — cidade grande, que oferece estímulos para o bem e para o mal — eu não seria eu.
Nasci na periferia, mas apenas no sentido de dormir lá. Porque desde os 16 anos já trabalhava em uma multinacional e vivia no centro de São Paulo.
Do meu bairro só lembro até os 16 anos. Depois, vivi apenas no centro: estudando, trabalhando. Só regressei após vender a empresa e sucumbir ao vício.
E ao contrário do que muitos acreditam, não conheci as drogas na adolescência ou por causa da periferia. Foi já adulto, e por causa do trabalho.
Quem me apresentou à cocaína foi um estudante da PUC. Ele dizia ser a referência de “rico” na família, trabalhava no mercado financeiro, era herdeiro não só de dinheiro como também de capital erótico. Algumas meninas até diziam que ele era mais bonito que o Caio Castro (eu achava exagero). Mas fato é que eu e ele dávamos rolê, e acontecia de carros de mulheres pararem ao nosso lado, e a gente ia dali para outro lugar.
Infelizmente, as substâncias, em vez de melhorar, atrapalhavam as nossas experiências, sendo que a gente poderia ser bons amigos até hoje. Ele era engraçado, criativo. Eu apresentei a ele o cinema, e ele me apresentou… bem… o submundo.
Antes disso, comecei a beber nos happy hours do trabalho, mas nunca gostei.
A maconha, quem me apresentou foi o colega que veio comigo para Maceió, aquele mesmo que ficou com a Sexóloga lá… E depois eu só usava haxixe comprado de traficantes que traziam de Santos, igual a gente vê em filmes.
Mas, para montar a empresa, não escolhi nenhum desses personagens. Sociedade não se faz com amigos, mas com os mais habilidosos.
Eu tinha 21 anos. Era tido como um “Neymar”: rebelde, talentoso. Não tinha chefe. Era comercial, fazia de tudo. Tinha mais cartões de visita do que o próprio setor de vendas. Participava de reuniões, fazia palestras.
O gerente geral viu a mim, a um dos meus futuros sócios e a outro rapaz, que era parente do dono da empresa, mas também tinha a nossa idade, e disse: “Aqui está a elite da empresa reunida, nosso futuro.”
Esse mesmo que era apadrinhado, no amigo secreto de 100 reais da empresa, me tirou e me presenteou com uma camiseta polo da Brooksfield. Para ele, aquele era o nível do meu gosto e mostrava o dele…. financeiro. E havia uma superstição: quem ele tirava, era demitido depois.
Quando tirei meu papel, brinquei ao microfone: “Obrigado, pessoal, foi um prazer trabalhar com vocês…”
A profecia se cumpriu em parte. Como eu era incontrolável, encenaram minha demissão como se fosse a pena de morte de Dostoiévski, comutada em pena de trabalho forçados na Sibéria. O dono me ofereceu outra chance, mas eu recusei. Eu já planejava minha própria empresa.
Pra quem quiser saber mais, leia aqui:
Escolhi os sócios certos. Eu, com 21, era o mais velho. Passar credibilidade com essa idade era um desafio. Ainda assim, a empresa existe até hoje.
Um dos sócios me apresentou Paulo Leminski. Ele estudava na Mackenzie, uma das universidades privadas mais prestigiadas de São Paulo. O outro morava na Granja Viana, bairro nobre. A mãe era assessora do PT, o padrasto, jornalista. Queria conquistar sua própria vida. Hoje conseguiu.
Em uma reunião de negócios, já fora da antiga empresa, conversávamos com nosso ex-chefe. Após uma das minhas ideias inspiradas, ele me disse:
“David, depois que você ficar rico, promete que não vai esquecer de mim?”
Era estranho. Ele tinha uma empresa milionária, uma Land Rover, um Camaro
(amarelo, com uma faixa preta estilizada, claro, porque ele era ex-pobre), uma Harley-Davidson
… e disse isso para mim, que não tinha nada além de capacidade.
E o que aconteceu com aquele David que iria ficar rico?
A verdade é que a mesma energia que eu poderia ter investido em riqueza, parte dela foi desviada pelo instinto de morte. Mas outra parte, pelo instinto de vida, me levou a passar manhãs inteiras lendo, aprendendo, cultivando o intelecto.
Sou grato pelos caminhos que me conduziram até a sabedoria atual — talvez mais valiosa do que a vida dos meus antigos sócios. Tenho saúde, cultura, sabedoria.
Se não fosse isso, talvez eu tivesse dinheiro, soubesse escrever, tivesse alguma cultura, mas nada muito surpreendente, nível escritores do Recanto das Letras, sabe…
Georges Bataille, ao defender Nietzsche das apropriações nazistas, tentou traduzir o conceito de “vontade de potência” para “vontade de chance”. Porque a vida não é uma escolha certa, mas uma aposta.
Quando escolho agir — estudar, treinar, fazer dieta — estou apostando em uma versão de mim no futuro. É como no pôquer: nunca há certeza, mas há probabilidades.
Apostar em si mesmo é sempre escolher a melhor versão que se quer ser. E convenhamos: as chances de que eu tenha mais saúde, conhecimento e felicidade são muito maiores do que as de quem não treina e não estuda.
Tudo se resume a isso: apostar na melhor versão de si mesmo no futuro.