
DAVELEDAVE.RECANTODASLETRAS.COM.BR
Amo tanto o futebol dos americanos que, às vezes, no meu íntimo, chego a cometer a heresia de pensar que esse é o melhor esporte que existe. Mas aí é só calor da emoção.
E afirmo isso em noite de Libertadores: Avanti, Palestra! Vamos levar mais uma Libertadores para casa, o maior time BRASILEIRO da história da competição!!!
O futebol verdadeiro é o da bola redonda, americanos que me perdoem, embora o jogo deles beira a perfeição. É tanta nuance que acontece em cada snap, cada lance, cada jogo, que dois minutos parecem uma eternidade, dez segundos decidem uma partida, às vezes contrariando a mitologia. E são os filhos que engolem Cronos, porque mesmo sem tempo, há jogo. Pode haver um touchdown de retorno mesmo com o cronômetro zerado!
É um jogo de xadrez, estratégico, de tabuleiro, uma guerra — por isso tantas metáforas bélicas, como trincheiras, para descrever as batalhas entre as linhas ofensivas, que protegem o quarterback, e os pass rushers, jogadores da linha defensiva que pressionam.
E eu gosto do modo como a liga é organizada. O país capitalista sucumbindo ao “comunismo”, cedendo a melhor escolha do draft — o melhor talento vindo da universidade — ao pior time da liga.
Porque eles acreditam que a liga será tão mais forte quanto for o seu time mais fraco.
Imagine esse pensamento transportado para a sociedade. Nem John Rawls, com seu véu da ignorância, pensou numa igualdade tão radical quanto essa.
E, como na escolha do draft, há uma análise criteriosa dos olheiros que deveria servir como modelo para headhunters de todas as empresas, no quesito ética de trabalho.
Muitos talentos brutos caem drasticamente no draft se sua vida não revela uma boa ética de trabalho, que envolve valores, disciplina e consciência. Alguns talentos já têm problemas com a polícia, e tudo isso pesa na balança, influenciando o futuro.
Agora, quem tem uma boa ética de trabalho supera até o talento natural menor.
No último Sunday Night, o jogo mais importante da televisão americana exibiu o reencontro do Super Bowl — a final do futebol americano do ano passado, que é o comercial mais caro da TV mundial — entre Philadelphia Eagles e Kansas City Chiefs.
O quarterback do Chiefs é o mais talentoso da liga e talvez de todos os tempos: Patrick Mahomes. Tão mágico em alguns momentos que ganhou o apelido de “Magic Mahomes”. Porém, o maior QB de todos os tempos só foi escolhido na 6ª rodada do draft, geralmente reservada a apostas e posições menos valorizadas. É como se fosse uma casta de Dalits do futebol americano.
No entanto, Tom Brady, que começou em uma posição similar, conquistou 7 anéis de campeão por dois times diferentes e se tornou o maior jogador de todos os tempos, além de se casar com Gisele Bündchen, a mulher mais sexy do mundo, embora depois tenham se separado. Um anel a menos, como o dedo perdido do Lula.
O QB dos Eagles, Jalen Hurts, ficou conhecido mundialmente na final universitária exibida em todo os EUA e em muitos lugares do mundo. Ele estava tão mal que o lendário treinador Nick Saban, de Alabama, o substituiu por Tua Tagovailoa, e a estratégia deu certo. Alabama foi campeão. Hurts foi ridicularizado em rede nacional.
Mas o tempo passou. Hoje, Tagovailoa é o QB principal do Miami Dolphins, uma espécie de Vasco da Gama do futebol americano, sendo criticado e questionado se possui talento para liderar uma franquia. Hurts, por sua vez, deu a volta por cima: venceu o melhor QB da liga no Super Bowl, tornou-se campeão e consolidou-se como um dos quarterbacks de elite. No último domingo, venceu novamente.
E essas histórias de redenção, essas lembranças do que o ser humano é capaz, o esporte nos lembra, e o futebol americano nos oferece.
Há o exemplo de Sam Darnold, que uma vez sofreu tantos sacks — quando defensores derrubam o quarterback antes de lançar a bola, culminando em perda de jardas — que ele disse ter visto “fantasmas”. Mas deu a volta por cima e hoje é um dos QBs mais sólidos da liga, no Seattle Seahawks.
Ou Baker Mayfield, que ganhou o Heisman, prêmio de melhor jogador universitário, sendo a primeira escolha do draft do Cleveland Browns, mas não se adaptou de imediato ao profissionalismo da NFL. Foi trocado por diversos times e hoje é um dos principais QBs da liga, reconhecido por um dos mais clutches.
E Daniel Jones, em Nova Iorque, foi colocado de titular, chegou a ser realocado para o practice squad — jogadores que nem reservas são — e agora, novamente titular em outra equipe, nos Indianapolis Colts, venceu dois jogos consecutivos em 2025.
Eu gosto do underdog, que representa a redenção, a superação pela ética de trabalho. Não sei por que me identifico com esse tipo de personagem.
É por isso que gosto de assistir a esses personagens toda semana na NFL através do futebol americano.