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A resposta é sim: se a história for histórico médico, histórico com o cardiologista, com o endocrinologista, ortopedista, etc.
Homem que repete essa palhaçada, além de preguiçoso, é covarde em má-fé sartreana — justifica sua pança de Sancho Pança e sua falta de força de vontade para mudar a própria condição.
A barriga, a obesidade, é fruto de incompatibilidade evolutiva: nosso corpo está vivendo em um ambiente diferente daquele para o qual foi selecionado.
Algo que eu intuí não é nada de novo: já vem da sabedoria de Nietzsche, em Ecce Homo e em Zaratustra, no filósofo andarilho que escalava montanhas. Andar faz bem para o corpo e para o pensamento, para a fisiologia de modo geral. Era sua tentativa de recuperar a saúde — de viver de um modo mais adaptativo e natural, para o qual nossa espécie foi selecionada.
Andar o máximo possível. Ter uma dieta o mais natural possível, à base de carne, frutas, vegetais, com o menor número de processos industrializados. Açúcar adicionado, gordura saturada e trans não existem na natureza.
Alimentos hiperpalatáveis destroem. Você faz estudos com animais, adiciona esses alimentos à dieta deles, e a saúde despenca vertiginosamente. Retira-os, e a saúde sobe. Acrescenta atividade física, sobe mais ainda. Combina com boa alimentação, sobe ao máximo.
Com humanos, não é diferente.
Por muito tempo achei a figura do fisiculturista ridícula: um pegador de peso troglodita e burro.
Um espetaculo de freak show. Um artista da fome, como o conto de kafka, às avessas.
Mas pensei melhor: um cara que alcança 5% de gordura corporal não pode ser burro. Mesmo que use meios ilícitos, anabolizantes, drogas que contrariam a natureza, ainda assim há disciplina.
Na verdade, ele tem o mesmo nível de intensidade que o nerd obeso, o CDF do Vale do Silício, o operador do mercado financeiro, o aprovado com mil no Enem ou na Fuvest — mas que vive como inepto para a vida, contrariamente ao que o ser humano foi feito.
E mesmo que o nerd tenha tido sucesso momentâneo — passar no vestibular, ganhar dinheiro, passar no concurso — como explicaria Aristóteles, talento não é nada sem atualização constante.
A diferença entre dynamis e energeia é justamente essa: dynamis é potência, possibilidade de ser; energeia é o exercício atual, o ato realizado.
Ou seja, de nada adianta possuir capacidade se ela não se transforma em prática. O nerd obeso, com toda sua potência intelectual, é incapaz de atualizar essa potência no campo corporal — torna-se unilateral, dissonante com sua própria natureza. O fisiculturista, por outro lado, mesmo usando atalhos químicos, converte a potência (dynamis) em ato (energeia) diariamente no treino, no corpo, no metabolismo.
Se você analisa o cérebro humano, o hipocampo — responsável pela memória declarativa, por decorar informações — é pequeno.
Já a área da memória implícita, responsável pela locomoção motora, pelo agir sem pensar, pela técnica incorporada que se torna parte de você, é muito maior.
Aqui entra Bergson: a memória intuitiva, vivida, encarnada, não é apenas armazenamento. É fluxo vital, é corpo em movimento.
O fisiculturista, nesse sentido, torna-se mais adaptado ao ambiente evolutivo que selecionou nossa espécie do que o nerd obeso. Porque o primeiro inscreve no corpo uma memória viva, enquanto o segundo acumula apenas dados mortos.
É claro: drogas anabolizantes, assim como alimentos hiperpalatáveis, podem encurtar a existência. Mas isso não anula a questão: quem atualiza sua potência corporal vive mais próximo da natureza da espécie do que quem se contenta em armazenar potência sem jamais atualizá-la.