
Como eu gostaria de ser corrigido por um leitor voraz, um especialista na obra de Joyce, alguém capaz de atravessar as camadas de Ulisses com a mesma obstinação com que Leopold Bloom atravessa Dublin em um único dia. Mas convenhamos: aqui no RL, que é apenas um microcosmo da sociedade, as pessoas mal conseguem escrever três frases concatenadas. Então, como de hábito, sou eu mesmo que terei de reler, revisar, cortar arestas e corrigir imprecisões.
Ao contrário do que afirmei no meu último texto — Algumas pessoas não vão gostar de você. E tudo bem! — para quem não leu, segue o link abaixo:
https://www.recantodasletras.com.br/artigos-de-cultura/8434294
Na verdade, o capítulo que melhor alude ao episódio da bruxa Circe — quando os companheiros de Ulisses são transformados em porcos — não é o último, como muitos pensam, mas o célebre “Circe”, ambientado no bordel de Bella Cohen, em Dublin. Stephen Dedalus, embriagado e arrastado por amigos, se perde em delírios febris, e Bloom o segue, num mergulho em visões grotescas, alucinações, metamorfoses animalescas. A atmosfera de pesadelo é justamente a versão joyciana da feitiçaria homérica: não há feitiços clássicos, mas sim o álcool, a degradação moral e a perversão urbana que reduzem homens a bestas.
Já o último capítulo, ao qual me referi de forma imprecisa, não é uma continuação desse delírio, mas sim o monólogo final de Molly Bloom, a “Penélope” moderna. Só que aqui não temos a espera paciente de uma esposa fiel pelo herói regressando a Ítaca; temos o fluxo de consciência erótico, repetitivo, corporal, imediato. No lugar de Ulisses, temos Bloom: não o herói astuto, mas o homem comum, medíocre, vulgar, um marido traído vagando pela cidade. No lugar de Ítaca, temos Dublin, com suas ruas lamacentas, bares, prostíbulos e mercados.
E eis a ironia que Joyce ergue como espelho: a epopeia clássica da volta do herói se converte, no século XX, em um dia qualquer de um sujeito banal, cujas conquistas são caminhar, comer rim de porco no café da manhã, masturba-se discretamente enquanto vê colegiais se divertindo a beira da praia, que ajuda Stephen a não se perder de si mesmo, e, ao fim, retornar à cama de Molly. Em vez da glória de Troia, temos o cansaço cotidiano. Em vez de deuses e monstros, apenas as pequenas humilhações urbanas. Mas ainda assim, entre esses cacos, surge a epifania: a vida comum erguida à altura de epopeia.