
A aula que mais gosto, e assisti várias vezes no Reservatório de Dopamina do Eslen Delanogare, é a masterclasse As Regras do Jogo. Talvez por me lembrar um dos meus filmes prediletos: A Regra do Jogo, de Jean Renoir, clássico de 1939.
Nessa aula, na regra número um, Eslen explica que simplesmente não combinamos com determinados ambientes. Que certos lugares são tóxicos para nós. Isso é explicado à luz da neurociência, com evidências científicas.
É a filosofia de Espinosa e Nietzsche, mas agora demonstrada com dados. Ambientes que diminuem nossa energia vital, nossa potência de agir, nosso élan vital, libido, vontade de potência — chame como quiser.
Essa evidência também permite afirmar algo curioso: a esquizoanálise deleuziana, outrora dita revolucionária e antipsicanalítica, hoje se revela quase uma terapia comportamental. Só que para entendê-la, você precisa ser intelectual. Essa é a verdade.
E a regra 13 da masterclasse As Regras do Jogo é libertadora. Mas é algo que eu já sabia, porque é uma sabedoria milenar.
Está contida no Zaratustra de Nietzsche — um livro para todos e para ninguém. Não é por acaso. Essa regra tira um peso enorme das costas de muitos.
A verdade é simples: algumas pessoas simplesmente não vão gostar de você. Sem mais, nem menos.
E a razão? Você é um ambiente ruim para elas. Diminui sua potência de agir. Só por existir. Principalmente se tiver sucesso no que se propôs a fazer — porque isso lembrará essas pessoas de sua incapacidade.
Por isso, você, por benevolência, quem habita altos ares, tende a se isolar — não apenas para não magoar os outros, mas também por pura falta de assunto.
É por isso aquela famosa foto de Nietzsche, fitando solitário do alto das montanhas.

O intelecto gera solidão. Mas é uma solidão voluntária, que fortalece nossa vontade de potência — e, paradoxalmente, também a dos demais, já que a comparação os diminui.
Veja a “desassistente” social. Simplesmente por não suportar minha visão, tentou me eliminar do jogo como se fosse uma rodada de Round Six.
Mas, no final, ela continua gorda, burra e estagnada. E eu? Lindo, maravilhoso, nada mudou na minha vida. Sou uma ação com viés de alta, enquanto ela só despenca ladeira abaixo.
Porém, há outras pessoas diferentes. Sentem-se bem com esse mindset que desperto: de alguém hiperprodutivo no que se propõe.
E aí você argumenta: como pode alguém que mora com a mãe ser hiperprodutivo?
Bom… só de você estar na minha página do Recanto das Letras e conhecê-la já é a resposta.
Eu poderia tirar a camisa e postar a foto do meu shape. Mas prefiro te responder o seguinte: estou escrevendo enquanto caminho na esteira. Agora são exatamente 18h33.
E esse texto sai como o último capítulo de Ulysses de James Joyce. Aquele em que Molly, esposa de Bloom, personagem principal (o Ulisses moderno), assume a narrativa em fluxo de consciência. Joyce escreveu sem pontuação, sem freios, sem nada. Assim como fazia Clarice, como fazia Virginia Woolf.
E mesmo assim você entende. Quer dizer, entende se tiver capacidade intelectual. Se tiver lido A Odisseia de Homero. Se souber que esse capítulo alude ao episódio de Circe (correção, abaixo, no final do texto). Se tiver estudado ambos os livros à luz de comentadores.
Nesse romance, há também a jovem que faz as vezes de Telêmaco, o filho de Leopold Bloom: Stephen Dedalus. Ele já aparecera em outro livro de Joyce, Retrato do Artista Quando Jovem.
Stephen é definido pela capacidade de explicar Shakespeare por álgebra. Ele contrasta com seu amigo, também professor em Sandycove e dândi ingles, Haines
Bom… eu posso morar com minha mãe, mas entendi desde cedo: conhecimento é poder. Conhecimento é capital cultural. É moeda de troca, convertida em outros capitais, como explicaria Pierre Bourdieu.
E hoje o shape traduz seu nível de ética de trabalho sem que você precise abrir a boca. Sua imagem: seu bom gosto, sem precisar falar. E você, em?
E há pessoas que não vão gostar de você por causa disso.
Se você me perguntar se eu leio bastante, se vejo muitos filmes, eu responderia: mais do que pensa e menos do que imagina.
A verdade é que vejo e leio os filmes certos. Filtrados pelo meu bom gosto.
Afinal, eu sou apenas isso: uma pessoa de bom gosto e criativa. Isso é tudo. E isso já basta para que não gostem de mim.
E tudo bem.
Como eu gostaria de ser corrigido por um leitor voraz, um especialista na obra de Joyce, alguém capaz de atravessar as camadas de Ulisses com a mesma obstinação com que Leopold Bloom atravessa Dublin em um único dia. Mas convenhamos: aqui no RL, que é apenas um microcosmo da sociedade, as pessoas mal conseguem escrever três frases concatenadas. Então, como de hábito, sou eu mesmo que terei de reler, revisar, cortar arestas e corrigir imprecisões.
Na verdade, o capítulo que melhor alude ao episódio da bruxa Circe — quando os companheiros de Ulisses são transformados em porcos — não é o último, como muitos pensam, mas o célebre “Circe”, ambientado no bordel de Bella Cohen, em Dublin. Stephen Dedalus, embriagado e arrastado por amigos, se perde em delírios febris, e Bloom o segue, num mergulho em visões grotescas, alucinações, metamorfoses animalescas. A atmosfera de pesadelo é justamente a versão joyciana da feitiçaria homérica: não há feitiços clássicos, mas sim o álcool, a degradação moral e a perversão urbana que reduzem homens a bestas.
Já o último capítulo, ao qual me referi de forma imprecisa, não é uma continuação desse delírio, mas sim o monólogo final de Molly Bloom, a “Penélope” moderna. Só que aqui não temos a espera paciente de uma esposa fiel pelo herói regressando a Ítaca; temos o fluxo de consciência erótico, repetitivo, corporal, imediato. No lugar de Ulisses, temos Bloom: não o herói astuto, mas o homem comum, medíocre, vulgar, um marido traído vagando pela cidade. No lugar de Ítaca, temos Dublin, com suas ruas lamacentas, bares, prostíbulos e mercados.
E eis a ironia que Joyce ergue como espelho: a epopeia clássica da volta do herói se converte, no século XX, em um dia qualquer de um sujeito banal, cujas conquistas são caminhar, comer rim de porco no café da manhã, ajudar Stephen a não se perder de si mesmo, e, ao fim, retornar à cama de Molly. Em vez da glória de Troia, temos o cansaço cotidiano. Em vez de deuses e monstros, apenas as pequenas humilhações urbanas. Mas ainda assim, entre esses cacos, surge a epifania: a vida comum erguida à altura de epopeia.