
Minhas inimigas falam, com certa razão, difícil de rebater, que eu digo que criei a conta no Recanto por causa de certa pessoa, mas fico flertando com outras garotas…
Se eu sou uma espécie de Casanova, um Don Juan moderno, um sedutor contumaz, como elas querem pintar, como explicar textos como esse aqui, em que eu tenho a capacidade de desagradar não só a uma, mas todas as minhas pretendentes atuais e futuras?
Será que depois de mais de 1.700 textos as pessoas ainda não compreenderam que meu único compromisso não é outro senão com a escrita?
E se eu preciso subverter tudo pelo bem da escrita, até mesmo a realidade, eu irei fazê-lo — pelo bem da arte, pelo bem do estilo.
Eu sei lá o que é a realidade. Mas irei relatar um fator que coloca à prova a lei da relatividade de Einstein.
Sou paulistano, nascido no berço da capital paulista, no hospital em Ibirapuera. Mais paulistano impossível.
Filho de migrantes nordestinos: minha mãe, morena pernambucana, vitoriana de Santo Antão; meu pai, branco, baiano de Vitória da Conquista, interior da Bahia.
E o único lugar do Nordeste que visitei foi Alagoas, Maceió.
Meu lugar favorito lá é a Praia do Francês. Eu, que sou francófilo, fã da literatura francesa e da Nouvelle Vague, conheci lá uma chilena, com quem passei uma noite. Conversei em inglês, apesar da língua dela ser o castelhano. Ela preteriu um japonês para ficar comigo.
Era amiga de uma loira sexóloga, e a morena era ex-jogadora de vôlei da seleção chilena.
Isso é relativamente o que nem Einstein consegue traduzir em fórmula.
Mas na Bahia mesmo eu nunca fui.
Gostaria de conhecer uma cidadezinha chamada Uibaí. Conheci uma lenda de que lá mora uma princesa muito, muito bonita — que parece a Rapunzel, mas que até agora só conheceu sapos.
Engraçado que meu turismo é um turismo sexual, por assim dizer. E não é preciso muito dinheiro pra viajar.
Mas eu prefiro andar de avião.
Não sou muito viajado, o que é uma pena, pois como diz em Godard, Pierrot le Fou, viajar abre a mente.
As garotas me convidam. Umas moram sozinhas, outras nem tanto, mas arrumam um jeito de estarem sozinhas. Só que eu teria que ir de ônibus.
E andar de ônibus é desgastante.
Os lugares que já fui: Santa Catarina, onde fui ao Oktoberfest, e Curitiba. Ambas de ônibus. Floripa, eu não conheci realmente — cidade que lembra quem fez o convite.
Mas mais de 24 horas em um ônibus…
O Oktoberfest mesmo: num ônibus open bar cheio de mulher bonita, pegação total. A experiência não foi boa. E chegando lá, houve imprevisto, porque surgiu uma cratera no meio do caminho, aproveitamos pouco.
Mas quando cheguei, não é difícil compreender a ideia islâmica de paraíso: cheio de mulheres maravilhosas para quem se sacrifica por uma causa.
Foi assim que me senti, vendo aquele monte de menina loira de olho azul, germânica, padrão ouro de beleza, que o Mamãe Falei assinaria embaixo — que nem parece Brasil.
(Desculpa, pessoal, essa piada foi de mau gosto. Acho esse deputado uma figura nefasta da política. Mas a piada foi boa, vai…)
Pro Rio também fui convidado, na casa de uma mulher madura.
Só que hoje eu me permito não me relacionar com quem não sabe escrever a gramática básica. Então não rolou, e eu a bloqueei do WhatsApp, inclusive.
Eu não sei o que essas mulheres têm na cabeça, viu. Elas leem uns versos na internet… minto: umas palavras avulsas, uns tais artigos culturais, que sim, alguns têm seu charme, têm sua beleza.
O autor cita o nome de um filme ou outro, um filósofo e outro, cita versos, atrela conceitos, poesias… Mas nem têm o charme de estar no papiro — e sim no digital.
E saem fazendo convites de encontros amorosos!
Um convite pra Santa Fé do Sul.
Pra Curitiba.
Pra Uibaí.
Pra Florianópolis.
Pro Rio de Janeiro.
Um convite para o prazer… Afinal, não é esse o papel da literatura?
Mas pra Bahia, Uibaí, eu encararia cratera, ciclope, a ilha de Calipso, comedores de lótus, todos os desafios de Ulisses, mais dez anos pra chegar, viu.
O que eu não tenho é a sorte do convite.