

DAVELEDAVE.RECANTODASLETRAS.COM.BR
Muito em voga em bios do Instagram, essa conversa do lifestyle, estilo de vida saudável, se tornou quase um passaporte social. Tanto é que Jeff Bezos, o pessoal do Vale do Silício e o mundo do capital em geral mudaram o padrão de ostentação: antes eram bens materiais, agora é o shape. A aparência de Bezos mudou drasticamente de lá para cá.
Ir contra essa maré, além de preguiçoso, é se entregar à derrota e, ao meu ver, ser reacionário.
Eslen diz que é a antítese do cara “cool” na internet porque fala que gosta de ler, estudar, dormir, praticar atividade física, cultivar solicitude, paz, lazer. Para ele, a esbórnia, o álcool, as drogas e a ostentação são coisas de idiota.
Eu vou além: tento mostrar que o verdadeiro “cool” é ler, ser elegante, ter um shape bonito, uma aparência que reflita seu modo de vida sem que você precise dizer nada. Dormir bem, ver bons filmes, ser gentil. Etc. etc.
Essa coisa do alto desempenho é difícil de definir, mas carrega em si um magnetismo. É sexy dizer que se tem alto desempenho. E, convenhamos, alto desempenho nunca pode estar associado a algo negativo, correto?
Alto desempenho na cama, no esporte, no automobilismo, na atividade física… Basta olhar para o rosto de alguém ou para um abdômen definido: ali está a marca de um estilo de vida. Certamente não é fácil chegar àquele resultado — por isso se intui sobre quem o possui. É a Fórmula 1 dos shapes: abaixo de 8% de gordura corporal, sem precisar abrir a boca.
Mas a aparência e os sentidos, que são apenas sombras na caverna, nem sempre mostram a realidade. O que importa é o mundo das ideias, já diria Platão.
Muitos recorrem a drogas para chegar nesses resultados: diuréticos, anabolizantes. Isso é o contrário da vida saudável.
A nova geração — sei lá, geração XY — não está mais bebendo álcool porque “faz mal para o shape”. Preferem drogas sintéticas para ficarem chapados: metanfetamina, até cocaína (que pode ser diurética, mas exige cuidado para não catabolizar, para não ficar parecendo Amy Winehouse). Alguns cantores preferem usar via anal para não estragar as cordas vocais. Tudo em nome da suposta performance.
O mundo da aparência não é fácil. Muitos atletas de fisiculturismo morrem cedo, com menos de 50 anos, pelo uso de drogas.
Enquanto isso, boêmios que ficavam expostos ao sereno, comiam mal, eram sedentários, fumavam charuto… viviam até 80 anos. Não há dados sólidos, mas talvez, via neuroplasticidade, a atividade intelectual seja protetora e prolongue a longevidade. Afinal, o cérebro controla tudo. A prevenção de doenças mentais é unanimidade: protege o corpo inteiro.
O ideal é fazer como os gregos: ir além. Não só praticar atividade física para não prejudicar a alma (o pensamento), mas integrar corpo e mente. Hoje, com a neurociência, sabemos que corpo e pensamento são uma coisa só.
Não existe no cérebro um “eu” isolado, uma mente que arbitra do alto. O ideal é criar para si um ambiente mais adaptativo, tanto para a prática de atividade física quanto para as atividades intelectuais.
À luz da evolução, não faz sentido dizer que algo “evoluiu para”. Sempre foi uma questão de adaptação a um determinado ambiente e finalidade. O ambiente seleciona os mais aptos.
A minha foto, que abre o texto, vai totalmente contra minha genética. Minha tendência é acumular gordura abdominal, até ser gordo. Não se enganem: não sou magro naturalmente.
Se eu não me cuidar, mesmo usando substâncias diuréticas ilícitas, meus amigos, eu sou apenas esse cara da foto . .

porque você fica um tempo sem fome, mas quando ela volta, vem em dobro devido ao efeito reboot
Daí a pergunta: se obesidade e açúcar são vício, são doença? São adicção?
Fato é que ninguém sai sorrateiramente de casa às 4h30 da manhã para comprar um chocolate na favela.
Mas o contrário existe: gente que vende bens pessoais para sustentar o vício. Um amigo meu disse que conhece um conhecido que conhece um parente que fez isso uma vez… Eu acreditaria, se fosse vocês, viu?
Culpar a genética pelo vício e pela obesidade é má-fé, como já dizia Sartre.
David Goggins — claro, só poderia ter esse nome — é o cara mais casca-grossa: Iron Man, ultra maratonista, palestrante, ex-gordo. Veja imagens para comprovar.


A diferença é que eu quero fazer em um ano o que ele demorou duas décadas. Porque meu sobrenome é Amorim e meu pseudônimo é Dave le Dave, não é Goggins. Because I’m not a fucking American.
Com certeza, alta performance não se define pelo baixo percentual de gordura, pelo abdômen definido, pelos músculos valorizados — nem mesmo pela saúde mental isolada.
É a junção de tudo isso, ou ainda, a capacidade de unir o alto desempenho físico à criação intelectual.
Um corpo bonito que não fala, que não lê, que não escreve, que não tem opinião, que não sabe discorrer sobre algum assunto, que não é interessante, que não é elegante nas maneiras, que não é bom cidadão, educado, respeitoso, com bom gosto…
Esse corpo tem tudo, menos alto desempenho.
E, pior, é tudo, menos humano. Se o que nos diferencia dos outros animais é a linguagem e a cultura — e não simplesmente a força ou a capacidade de locomoção —, então o verdadeiro lifestyle saudável é aquele que une corpo, mente e espírito em um mesmo fluxo criativo.