
DAVELEDAVE.RECANTODASLETRAS.COM.BR
Outra semelhança que guardo com Nietzsche é ser apátrida e antinacionalista. Mas não, não odeio o Brasil, embora pareça. Não tenho nada contra o Brasil. Meu problema é contra os brasileiros.
Meu irmão diz, muito sabiamente, que pelo clima e beleza, pra quem tem dinheiro, não há lugar melhor no mundo para viver do que aqui, porque o dinheiro permite viver as belezas naturais e o que o país tem de melhor. Mas o Brasil esteriliza e joga para debaixo do tapete todas as mazelas. Alphaville, um dos bairros mais nobres de São Paulo, ironicamente batizado com o nome de um filme de Godard sobre um universo distópico — a versão godardiana de 1984, um dos meus filmes prediletos do diretor, aliás — foi muito bem escolhido, ironicamente.
Os cidadãos vivem numa bolha, sem contato com o Brasil real da pobreza. Ou só o veem do vidro blindado de seus carros, ou na televisão, ou na cor da empregada que, felizmente, tem um elevador próprio, um cheiro e modo de se portar próprios. Parasita e aquele desfecho poderia ter se passado no Brasil. Aliás, não poderia, porque um dos fatos que me faz odiar o Brasil é que aqui não se faz bom cinema.
Meus filmes brasileiros preferidos continuam sendo, de longe, Cidade de Deus, Bingo; o intimista, O Homem das Multidões; e Ainda Estou Aqui. Só Cidade de Deus está muito à frente dos demais, e os outros não seguem uma ordem específica.
Mas veja, entre eles não há um — um Relatos Selvagens, ou O Segredo de Seus Olhos.
E a MUBI está homenageando Fernanda Torres, que dizem que deveria ganhar o Oscar no ano passado pela atuação em Ainda Estou Aqui.
Gente, pela lá um pouquinho, vamos com calma…
Eu assisti 40 minutos de Anora e, sinceramente, não sei se o filme melhora depois disso, que justificaria o Oscar. Mas a atuação da atriz que aparece nesse período tem tudo que um diretor pode querer de uma atriz. Ou ela de fato é uma puta, ou é uma puta atriz.
A menina tomou conta do filme em 40 minutos: teve cenas de sexo praticamente explícito, striptease, rebolou, chorou, cenas bucólicas, gritou, deu risada, em todas com extrema verossimilhança e naturalidade. Fernanda Torres fez cara de triste o filme inteiro, que, inclusive, é bom, mas cai muito de rendimento no final, que no máximo valeria o prêmio de melhor filme estrangeiro.
E convenhamos: até o desaparecimento do personagem de Selton Mello, Rubens Paiva, Selton Mello, para mim, estava sendo o protagonista do filme. Não dá para comparar a atuação da atriz de Anora com a de Fernanda Torres — e eu nem estou analisando beleza. Cai entre nós: eu já comi puta de 50 conto na Lapa, em São Paulo, mais bonita que a atriz que faz a Anora. Mas nesse espaço, que é familiar e de cultura, não comento sobre isso.
Voltando ao cinema: só aquela música eletrônica farofa da abertura de Anora já dá vontade de parar de assistir. E aquele marido da Anora, que teoricamente é gamer, aperta o botão daquele jeito.
Poxa, será que não tem ninguém para chegar no diretor e falar… cara, ninguém que já jogou videogame uma única vez na vida aperta os botões daquela maneira. Ele parecia o Lucas Silva no Mundo da Lua, jogando blisto e treinando para o campeonato. Porra, desanimador.
Se voltar gratuitamente para streaming, tento ver. Mas pagar para assistir esse filme? Não pago, não…
Arnaldo Jabor é uma das figuras do Cinema Novo. O Cinema Novo não me desce. Glauber Rocha não me desce. Acho que ele é um plagiador de Godard, mas sem elegância, erudição e finesse.
Scorsese elogia Deus e o Diabo na Terra do Sol, que é tipo um faroeste brasileiro. Eu acho chatíssimo. Assim como acho Terra em Transe chatíssimo. E não me acusem de ser por Glauber não ter formação acadêmica em cinema e cultura. Ora, Truffaut também não, e seus diálogos parecem prêmio Nobel de literatura; parecem escritos por Sartre ou Albert Camus.
O Homem que Amava as Mulheres — se você pegar o roteiro, poderia ser um livro. Os filmes de Godard têm diálogos e imagens que são pura poesia. Em Glauber, é política, política, política. É igual à fase política de Godard, Dziga Vertov, sem a parte da arte, só a parte política. Para mim, o cinema de Glauber é isso. E quando Glauber trabalhou com Jean-Pierre Léaud, o resultado, além de hermético, foi chatíssimo.
Talvez só Bertolucci o tenha desperdiçado tanto quanto em Último Tango em Paris, naquele filme que me fez vontade de nunca mais usar manteiga para fritar bife.
Para mim, o Brasil que deu certo é o do Xandão. O que deu errado é o das milícias, o do Fux e Bolsonaro.