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DAVE LE DAVE
SIM, ELE MESMO
Textos

EU NUNCA ESQUECI PORQUE EU A AMO


DAVELEDAVE.RECANTODASLETRAS.COM.BR

 


 

A POEIRA DAS GALÁXIAS

Se Deus fala que fomos feitos de pó, então ela e eu fomos feitos de pó de outra galáxia.

 

Ela me apareceu como uma aparição, como um cometa que só chega uma vez na humanidade e muda o transcurso da história. Ela acenou para mim como a garota que simbolizava a metáfora da pureza e da inocência em A Doce Vida, em contraste com a vida de esbórnia que o personagem de Mastroianni levava.

 

Ele, em vez de segui-la, diz adeus a ela e prefere ver aquela aberração de monstro que aparece à beira da praia. De modo análogo, minha vida seguiu esse percurso. Porém, diferente de um filme, eu nunca esqueci os motivos que me levaram a amá-la, os mesmos que a tornaram especial, diferente de todas que conheci desde então — muito embora, às vezes, me pareça que ela mesma tenha esquecido.

 


 

UMA GAROTA DE DEZENOVE ANOS

Na época, ela tinha dezenove anos.

 

E não é comum alguém nascido no interior de São Paulo, numa cidadezinha que faz divisa com Mato Grosso do Sul, conhecer Ingmar Bergman, ter como filme favorito Persona, citar Fernando Pessoa de cor, gostar de Graciliano Ramos, já ter lido Os Irmãos Karamázov.

 

Foi através dela que conheci o Recanto das Letras. Era 2015, já faz dez anos, e até hoje são raros os textos que superam os de uma garota de 19 anos de idade.

 

E devo dizer: os poucos que superaram foram os meus próprios textos — talvez por influência dela. Se eu não tivesse conhecido aquela garota, talvez jamais tivesse escrito com tanta intensidade. Talvez tenha sido uma tentativa de provar ao universo que eu era digno de alguém como ela.

 

Havia poucos textos, mas eu quase poderia recitá-los de cor.

Um comparava o poema Tabacaria de Pessoa com o filme Persona.

Outro, um poema, reclamava a Deus que nada faltava em sua vida — exceto “ela mesma”.

Outro ainda rememorava o conto Pássaro Branco na Nevasca: um pássaro que nasce negro, mas para parecer com os demais pássaros negros, tinge suas penas de neve — relegando justamente sua singularidade. Uma metáfora clara do reajuste dela em relação às suas ambições pessoais (talvez mais artísticas) e às pressões da sociedade.

 

Eu te entendo perfeitamente, meu amor.

 


 

DO ANJO AO MULHERÃO

Mas hoje aquela garota de aparência angelical cresceu e se tornou um mulherão. E que mulherão.

 

Se ela colocar uma peruca Chanel neon da cor verde, vai parecer Natalie Portman em Closer, naquela clássica foto em que olha de soslaio para trás.

 


 

Só que, para mim, ela ainda é mais sexy, mais gostosa, mais magnética que Natalie.

 


BERGMAN, O DESEJO E A ALMA

Mas vamos falar de cinema?

 

Eu falo pouco de Ingmar Bergman, acredito que o cineasta predileto dela. Os diretores da Nouvelle Vague disseram que aprenderam a filmar o desejo com Bergman, assistindo Mônica e o Desejo.

 

Aqueles closes no rosto e no corpo das atrizes revelavam mais do que a carne: revelavam a alma. É o que vemos, por exemplo, na cena entre Piccoli e Bardot em O Desprezo.

 

É claro que Bergman não é exatamente um cineasta fácil de digerir. Não é para assistir com a família num clima natalino. É da mesma estirpe de Michael Haneke.

 

Meu filme predileto dele é um dos últimos e raros coloridos: Fanny e Alexander, considerado autobiográfico.

 

Minto. Não, é claro que meu predileto é Persona.

 

Aliás, já que citei Haneke: muito antes dele (Professora de Piano) em outro filme colorido (Gritos e Sussurros, 1972), Bergman mostrou uma mulher se masturbando com um pedaço de vidro — uma cena tão cortante que espero nunca ver novamente, nem inadvertidamente, na minha vida.

 


 

DEPOIS DO CINEMA, O AMOR

Depois do disclaimer cinematográfico, volto ao amor.

 

Hoje, meu maior desejo não é apenas reencontrar aquela que amei e nunca esqueci, mas que ela volte a si mesma — que reencontre o caminho para ela mesma.

 

E quem sabe esses caminhos para nós mesmos possam nos conduzir a um futuro onde possamos, finalmente, ficar juntos.

 

Bom… com certeza isso não daria um filme de Bergman.

 

 

ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL)
Enviado por ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL) em 11/09/2025
Alterado em 12/09/2025
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