
Gaspar Noé diz que o bom do cinema é sabermos que tudo é encenado.
Mas imagine se aquela cena do extintor de incêndio em Irreversível, como propagada em fake news na época, fosse de fato real?
Infelizmente, no mundo real existem pessoas tão perversas que cometem as barbaridades que os cineastas apenas encenam.
É isso que Freud chamou de mal-estar na civilização: um erro específico que nasce do desejo humano pela ilusão.
A crença em Deus, por exemplo, surge muitas vezes dessa necessidade de corrigir injustiças e barbaridades que nos esmagam.
(Ilusão que, ao mesmo tempo, consola e aprisiona)
Uma experiência pessoal me marcou. Uma assistente social, obesa e corporativista, em vez de defender meus direitos, roubou-os de modo arbitrário, sem explicações, sem provas, sem sequer oferecer uma justificativa racional.
Atribuo isso ao recalque, ao ressentimento e ao mal absoluto.
A vida não é justa. E é por isso que lembro do que aconteceu com Oscar Wilde: da glória à difamação absoluta.
Um declínio injustificado, fruto de uma sociedade preconceituosa.
Sim, ele ousou viver uma vida promíscua, manter um relacionamento homossexual consensual, usar ópio em uma sociedade conservadora. E isso resultou em um ano de prisão.
Um artista, literato, gênio, dramaturgo, esteta, um dândi — relegado ao vexame e ao moralismo hipócrita.
Wilde escreveu De Profundis quase na mesma clandestinidade em que Sade escreveu Saló nos rolos de papel higiênico da Bastilha.
Texto doloroso, carregado de ressentimento contra seu amante, contra os dias na prisão, contra a humilhação de limpar banheiros enquanto seu parceiro seguia livre, casado, aparentemente respeitável.
Muitos desses homens respeitáveis, no entanto, forçam suas esposas a usarem cintaralhos para satisfazê-los sexualmente ou buscam travestis no Largo do Arouche, em São Paulo. Outros se refugiam na deep web, disseminando absurdos.
São essas pessoas — esses hipócritas — que constroem o mundo injusto que alimenta o mal-estar da civilização e o desejo ilusório de um Deus justificador.
Os cinéfilos da Nouvelle Vague repetem: a realidade começa quando as luzes da sala se apagam e a película começa a rodar.
Para quem ama o cinema, foi uma injustiça a demissão do diretor da Cinemateca, Henri Langlois, que culminou na Revolução Cultural, em maio de 68.
Em Masculino-Feminino, Jean-Pierre Léaud corre com um papel na mão porque a projeção do filme estava incorreta — o erro técnico se tornando narrativa.
No início de O Desprezo, como dizia André Bazin, o cinema não apenas reproduz o mundo real: ele o transforma, alinhando-o aos nossos sonhos.
Quando fiquei internado em uma clínica de reabilitação, deixei nas mãos de um amigo meu exemplar raro da coleção O que é Cinema? de Bazin, com as crônicas da Cahiers du Cinéma dos anos 30 a 50.
Ele ficou com o livro apenas porque tinha o telefone da minha mãe e poderia convencê-la a me tirar daquele inferno.
Mas não ligou. E ainda ficou com meu livro.
Ali, li a opinião de Bazin sobre Ladrões de Bicicleta, de De Sica: a genialidade de usar atores amadores, o contraste entre os passos pequenos do filho e os passos pesados do pai.
A elegância erudita da escrita de Bazin — marca registrada da Cahiers du Cinéma.
Um livro caro, raro… e perdido
Mesmo naquele lugar inóspito, conheci um jornalista, cuja filha era bailarina, que havia trabalhado na Folha de S. Paulo. Conversamos sobre cinema.
Na biblioteca da clínica, encontrei um DVD todo riscado de Morangos Silvestres, de Ingmar Bergman.
Discorri sobre o filme e sobre toda a carreira de Bergman. O jornalista ficou perplexo, dizendo que aquele lugar era um estupro para o meu cérebro.
Ele havia trabalhado com Álvaro Pereira Jr. e Otavio Frias Filho.
Respondi como Hamlet: que eu seria livre mesmo vivendo em uma casca de noz, desde que pudesse pensar.