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DAVE LE DAVE
SIM, ELE MESMO
Textos

DEVO PEDIR DESCULPAS POR SER INTELIGENTE?


 

DAVELEDAVE.RECANTODASLETRAS.COM.BR

 



Num país sério, uma página com meu nível cultural não só mereceria mais leitores, como eu seria remunerado — muito bem remunerado — pela cultura que dissemino e propago.

 

Mas no Brasil, um texto como o último que escrevi, belíssimo, sofisticado, que poderia estar na Ilustríssima, na Folha de S. Paulo, tem quatro leituras. E eu, além de não ganhar um vintém para manter meu site, ainda sou tratado como se fosse culpado por cultivar a inteligência.

 

Desde cedo, meus amigos e quem é próximo a mim sabem: ser do jeito que sou sempre me trouxe problemas. Professores que me olhavam atravessado, colegas de trabalho corroídos pela inveja, pessoas incapazes de compreender que eu quase me sinto obrigado a pedir desculpas por ser inteligente.

 


 

A SOLIDÃO FILOSÓFICA

A foto que ilustra este texto é célebre e icônica: o arquétipo que Nietzsche construiu da figura do filósofo solitário, aquele que habita os ares rarefeitos das montanhas de Sils Maria. Sem ninguém. Tendo a escrita como sua única companhia. Como diz uma amiga: é o retrato da existência filosófica.

 

O cerne do pensamento de Nietzsche é que a aristocracia não é questão de sangue, genética ou herança, mas de espírito. Ele gostava de dizer que existem indivíduos que nasceram póstumos. Talvez tenha se enganado. Acredito que ele foi, acima de tudo, um extemporâneo. Um grego que nasceu tardiamente na Alemanha do século XIX.

 


 

A HIERARQUIA DA ANTIGUIDADE

Naquele tempo, a sociedade era estratificada pelos mais aptos. Mas não pelo espírito, como queria Nietzsche. Não pela inteligência, como defendia Platão. Nem pelo talento, como acreditava Aristóteles.

 

A estratificação vinha, sobretudo, pelo nascimento. Como explica Fustel de Coulanges em A Cidade Antiga, era a religião dos mortos que moldava a hierarquia. A linhagem era destino.

 


 

O UNIVERSO DA CRIATIVIDADE

Não sei se no mundo acadêmico eu teria melhor sorte, já que ele é marcado pela vaidade. Mas tenho certeza: mesmo ali eu me destacaria. Porque escrever, aprender e pensar ainda é questão de criatividade.

 

Como disse Bakhtin, o gênio é aquele capaz de organizar um universo polifônico de ideias em algo novo. Criar síntese onde havia apenas fragmentos.

 

Nietzsche só produziu o que produziu depois de abandonar sua cátedra de filologia e se tornar andarilho. Há coerência entre sua fisiologia e seu pensamento. Rousseau escreveu simples porque queria incendiar a Revolução Francesa, sustentado por mulheres. Kant só deu à luz sua filosofia madura após os 75 anos, já aposentado e fora da universidade.

 


 

A MÁQUINA CELIBATÁRIA

É aqui que entra o conceito de Deleuze: a máquina celibatária. Um dispositivo de produção de pensamento que funciona fora do circuito do prazer social e da legitimação institucional.

 

Assim também é meu processo: isolado, independente, quase improdutivo aos olhos do mercado, mas absolutamente fértil em sua potência criativa.

 

Minha escrita, como a máquina celibatária, não busca a reprodução acadêmica, nem o gozo fácil da aceitação. Ela insiste em produzir diferença, mesmo que à custa da solidão.

 


 

A INDISCIPLINA DA INTELIGÊNCIA

Desde tenra idade, o que mais desperta a raiva dos meus inimigos é minha consistência. Minha capacidade de leitura, de memorização.

 

Mas também meu desinteresse pelo que não me importa. Eu só consigo aprender aquilo que me fascina. E aquilo que não me interessa, não recebe nem um grama da minha atenção.

 

Por isso não sei matemática, não passo em concurso, não resolvo uma equação de segundo grau. Mas consigo absorver conceitos sociológicos e filosóficos complexos, diferenciar Derrida de Foucault, Bourdieu de Deleuze, Nietzsche de qualquer outro.

 

Consigo decorar cinegrafias inteiras, movimentos artísticos, trechos de livros. Escrevo com extrema facilidade, até mesmo enquanto caminho na esteira. Mas não consigo multiplicar sem errar.

 

Na Academia de Aristóteles, o Liceu, onde se dizia “aqui não entra quem não sabe aritmética”, eu seria rejeitado.

 


 

A VAIDADE DA IGNORÂNCIA

A atividade intelectual é, sim, pedante. Mas a inveja que ela provoca é ainda maior.

 

Porque a capacidade de emagrecimento — ou a incapacidade dele — está ligada também à saúde mental e padrão de comportamentos cognitivos. A falta dessa saúde é, no fundo, uma falha cognitiva, uma deficiência de inteligência. E quando essas pessoas observam alguém capaz, em vez de se motivarem, como bons ressentidos e fracos que são, sentem inveja — como bons doentes e invejosos. Em vez de transformar esse ressentimento em força, voltam-se contra o alvo (eu). E, incapazes de mudar, descontam em alimentos hipercalóricos e fazem de tudo para prejudicar, já que, por conta própria, não conseguiram tornar-se mais inteligentes ou mais bonitas.

 

As pessoas querem ostentar inteligência, principalmente nas redes sociais. Mas não querem fazer o que é necessário para adquiri-la: sentar a bunda na cadeira e estudar.

 

Preferem ostentar aquilo que cunhei de “cosmética  do saber”. Os perfis de psicólogos que vejo, seguidores de gurus digitais, se alimentam de frases soltas de Dostoiévski, citações falsas atribuídas a Clarice Lispector. Tudo para parecer o que não são: detentores de conhecimento.

 


 

A DIFERENÇA ENTRE A COSMÉTICA E A SUBSTÂNCIA

A diferença entre quem realmente lê, domina conceitos, escreve e produz — e quem apenas exibe a cosmética do saber — é abissal.

 

Eu, por exemplo, tenho inúmeras resenhas de filmes publicadas, artigos culturais, crônicas, textos sobre gramática, até reflexões sobre a ontologia da língua portuguesa.

 

Encerro citando Nietzsche: o que tem valor não precisa de demonstração para ser comprovado.

 

 

ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL)
Enviado por ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL) em 09/09/2025
Alterado em 09/09/2025
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