
DAVELEDAVERECANTODASLETRAS.COM.BR
Belíssimo filme de Paolo Sorrentino, A Grande Beleza (La Grande Bellezza, 2013), sobre um escritor septuagenário em crise existencial, que escreveu um único livro de sucesso e vive em Roma sustentado pela nostalgia de sua glória passada, buscando inspiração na beleza para escrever novamente — mas sempre fracassando.
O filme é uma clara atualização de La Dolce Vita de Federico Fellini, mas com uma fotografia ainda mais deslumbrante. Com Toni Servillo no papel principal, uma espécie de dândi moderno, ele também encarna aquilo que eu mesmo busco: essa grande beleza que me inspire em meio ao mar de banalidade da atualidade.
Aliás, preciso acrescentar algo sobre Paolo Sorrentino que me intriga profundamente: ele dirigiu uma série realmente transgressora, da qual infelizmente não tive oportunidade de ver nada além da abertura — mas que já me pareceu promissora demais.
É a icônica série The Young Pope (2016), criada e dirigida por Sorrentino, estrelada por Jude Law como o enigmático Papa Pio XIII .
A abertura é um instante de pura sacanagem estética: freiras, dentro do convento, acomodadas para dormir… até que, de repente, colocam salto alto, passam batom e perfume, e dançam — em ritmo de rave, ao som de música eletrônica e cruzes neon, numa performance hipnótica e visualmente bombástica .
É como se Sorrentino dissesse, com o zelo de um esteta blasfemo, que a hipocrisia religiosa pode explodir num flash visual de provocação — e, ainda assim, seduzir.
Às vezes eu leio tanto, vejo tantos filmes, que confundo o que eu mesmo criei ou inventei com algo que li ou ouvi. Como essa ideia que me atormenta: a de que eu preciso de uma mulher que seja algo de fato — qualquer coisa. Talvez tenha sido Georges Bataille quem disse isso, tem a cara dele: que ela seja muito inteligente, ou muito bonita, ou tenha um jeito diferente de se portar, ou — na pior das hipóteses — que seja excêntrica, esquisita. Mas, pelo amor de Deus, que fuja da banalidade.
Chegamos à questão da sedução e de como ela é abordada pela arte, tanto na literatura quanto na vida dos próprios artistas.
O próprio Jep Gambardella, personagem de Servillo, é um sedutor. Assim como os arquétipos: Ligações Perigosas de Choderlos de Laclos; o Don Giovanni de Mozart; o Don Juan de Lord Byron (confundido com o próprio Byron); os personagens de Marquês de Sade; A História do Olho de Bataille; os corruptores que arrastam a inocência de Dorian Gray em Oscar Wilde.
E eu me lembro de Alfie — não o ET, mas o filme. Há duas versões: a original de 1966, dirigida por Lewis Gilbert e estrelada por Michael Caine, e a refilmagem de 2004 com Jude Law (um ator que considero fraco).
Assisti ao original apenas uma vez, mas duas cenas não saem da minha cabeça.
A primeira é um plano-sequência que mostra um gato caminhando até o início do primeiro diálogo do filme — um detalhe genial.
A segunda, mais devastadora: Alfie, mulherengo, obriga uma das mulheres a fazer um aborto. O aborto acontece, e o diretor filma a cena de modo profundamente sensível: sem imagens gráficas, apenas o rosto de Michael Caine, perplexo, em pavor diante do resultado. A câmera foca apenas na sua expressão. Genial.
Muito diferente de outros filmes sobre aborto, como Assunto de Mulheres (Une affaire de femmes, 1988), de Claude Chabrol, em que a crueza se impõe de outra maneira.
Esse recurso cinematográfico me lembrou o que François Truffaut dizia sobre a genialidade de Roberto Rossellini: sua capacidade de narrar guerras e tragédias imensas usando meia dúzia de figurantes. Sempre que Truffaut tinha um problema narrativo, perguntava-se: “O que Rossellini faria?”. E milagrosamente encontrava a solução.
Aliás, Rossellini tem uma série de filmes sobre filósofos — Socrates (1971), Cartesius (1974), entre outros — que podem ser encontrados até hoje no YouTube. Fica a dica.
E é curioso: lendo a vida dos filósofos, percebe-se como a dedicação ao pensamento puro não é boa para a sedução. Basta ver as biografias de Nietzsche, Spinoza, Schopenhauer.
Já nas artes, sobretudo poesia e literatura, a história é outra: o desejo das mulheres se derrama sobre quem cria beleza com palavras.
Rousseau tinha fama de ser sustentado por mulheres. Picasso, mulherengo contumaz. Truffaut, em O Homem que Amava as Mulheres (1977), fez um autorretrato da própria compulsão amorosa. Até cineastas de aparência frágil, como Woody Allen, só se envolviam com atrizes belas — às vezes, inclusive, menores de idade. Polanski, mais radical, nunca conheceu limites.
A arte, a literatura, a poesia — como mostra Ligações Perigosas — despertam o desejo de mulheres de todas as idades.
E eu, como amante da arte, sigo em busca dessa grande beleza: que me inspire, que me seduza — seja no corpo de uma mulher, seja na forma da arte.