
Virou até meme a falta de preparo da Glória Pires no Oscar, quando declarou não saber opinar sobre nenhum filme, diferentemente do antigo comentarista José Wilker.
O Brasil, atualmente, é o país das Glórias Pires, cujo analfabetismo funcional não permite que as pessoas tenham opinião sobre nada. Gente que assiste a um filme, lê um livro, lê uma matéria, mas não consegue formular uma ideia a respeito.
Dá tela azul no cérebro: “não tenho capacidade para opinar sobre isso.”
Mas a solução para esse problema estrutural educacional brasileiro não é tão simples.
Mesmo médicos, como o caso da namorada de Eslen, se formam sem saber usar um vocativo. Alunos de vestibular são cobrados a dar soluções para problemas complexos em redações de 30 linhas, com começo, meio e fim como receita de bolo — e depois dali, nunca mais escrevem.
E talento sem constante atualização não é nada. Como diz Reinaldo Azevedo: não se trata de dar soluções simples para problemas complexos.
O professor Clóvis costuma brincar: certa vez, um cliente que contratou sua palestra apareceu com um pen drive e disse: “Professor, aqui está sua palestra, o senhor havia esquecido.”
Ele respondeu: “A minha palestra é isso aí? (um pen drive?) O senhor me subestima.”
Outro episódio: acabou a luz, e ele disse: “Vejam, se fosse qualquer um de vocês, como não há mais PowerPoint, a palestra acabaria aqui. Mas como meu cérebro ainda funciona — e não depende de energia elétrica —, a palestra continua.”
E foi aplaudido de pé.
Ele não acredita em um pensamento que caiba em uma transparência de PowerPoint. Assim como eu não acredito em um pensamento que caiba em uma redação de 30 linhas no Enem — nem mesmo neste texto do Recanto das Letras.
Mesmo que eu precise simplificar meu pensamento para ser entendido por um público de um país de Glória Pires, que lê e não consegue tecer um comentário a respeito do que foi dito.
E sim, isso é uma provocação.
Por que o que faz o pensamento, o que constitui o repertório de alguém?
Além do vocabulário, construído pela leitura de livros, é também feito de ideias — adquiridas pelo ensino de filosofia, de sociologia, de história, de arte, de cultura, de cinema, de música. Até de educação física e dieta, porque saúde é fundamental: ter saúde produz pensamentos saudáveis, e um corpo doente só pode produzir o seu contrário.
A falta de repertório é o que gera os “países das Glórias Pires” que vemos nas redes sociais.
Gente que se comunica como homens das cavernas, deixando apenas emoticons, incapazes de escrever mais que quatro frases. Expressam seu contentamento apertando um botão de coração.
E quanto mais banal o conteúdo, mais coraçõezinhos recebe. Mais aplausos colhe.
E assim caminha a humanidade: desaprendendo a se comunicar, apequenando-se cada vez mais.