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DAVE LE DAVE
SIM, ELE MESMO
Textos

AINDA NOS É POSSÍVEL O AMOR?


DAVELEDAVERECANTODASLETRAS.COM.BR
 



O CAVALEIRO DA ILUSÃO

Dom Quixote é um livro triste, engraçado e belo. O maior clássico da língua espanhola, sem dúvidas.

 

No final, que talvez seja um dos mais tristes que consigo me lembrar na história da literatura, Dom Quixote se dá conta da sua condição melancólica: a sua loucura, a sua fantasia, a sua crença delirante de ser cavaleiro andante. Tudo não passava de fruto de sua mente doentia.

 

Essa história, rememorada por Nietzsche, simboliza a origem da tragédia grega e me lembra a minha própria história de amor.

 

Na verdade, quando digo que não amo mais a pessoa de outrora, é mais por perceber que a nossa história de amor era fruto da minha fantasia. Era donquixotesca.

 


 

O CENÁRIO DO TUDO POSSÍVEL

Em análise, aprendemos a traçar cenários em que todas as hipóteses fossem possíveis.

 

E nesse cenário hipotético, em respeito à nossa história, talvez eu diria que o sentimento que outrora foi amor se consolidou em algo até maior, transformando-se numa eterna ternura.

 

Aquela ternura desinteressada de quem não tem olhos para mais ninguém.

 

E se todas as possibilidades fossem possíveis na minha vida, eu gostaria de duas coisas: morar fora do Brasil, em Vancouver, na costa leste do Canadá, e criar minha filha lá — que será uma princesa.

 

Não poderia ser diferente, pois pela minha influência ela aprenderá desde cedo a observar como trato a mãe dela, ainda que eu nem saiba quem será. Só pelo exemplo, ela não aceitará na vida um homem que seja menos.

 

O pai será atleta, fará dieta. Ela crescerá cercada de livros, discos, artes, pela elegância e pela gentileza do pai. Aprenderá a tratar a todos com respeito. Pela influência paterna, será cinéfila. Será gamer porque viverá cercada de jogos. Gostará de esportes, torcerá pelo Palmeiras ou pelo futebol americano, como o pai. E dificilmente será uma pessoa desinteressante.

 

Conhecerá cinema de arte inevitavelmente, filosofia, história da arte. Terá as ferramentas para distinguir o que é beleza verdadeira e qual é o papel da arte — discernindo a energia vital, a arte dionisíaca, e o rigor de Apolo.

 

Por isso, não me preocupo que seja influenciada negativamente pelas vulgaridades do mundo: sua educação será sua fortaleza.

 

Minha filha poderá escolher: balé, dança, cinema, artes cênicas, até medicina, se assim desejar. Sim, eu gostaria que fosse um menino. Mas confesso: criar uma menina me parece mais fácil.

 

Agora, a mãe, eu não faço a mínima ideia de quem será… Mas sei de quem gostaria que fosse, nesse cenário em que tudo fosse possível.

 


 

A MESMA PESSOA DE SEMPRE

É a mesma pessoa de sempre.

 

Mas o que importa num relacionamento, apesar de toda a dinâmica de poder, é a reciprocidade.

 

Eu modifico a pessoa que amo, mas ela também me modifica através de influências positivas. Talvez ela absorva meus comportamentos bons, assim como eu absorvo os dela. Ela, autores que eu gosto. Eu, autores que ela gosta.

 

Foi assim que conheci Rubem Alves, por exemplo — antes, desconhecido para mim, mas que hoje é um dos meus cronistas favoritos.

 

Ou ainda, pela influência dela, eu me torno mais maduro, mais organizado, mais independente, mais disciplinado. É sempre uma troca.

 


 

AS RAZÕES DO DESTINO

Mas como disse, isso é apenas uma análise do “tudo possível”.

 

Às vezes não estamos juntos por razões que independem da nossa vontade: sociais, econômicas, parentais, genéticas, heranças, desconfianças. São todas essas razões.

 

E por conhecer esses empecilhos — assim como Dom Quixote no final do livro — mas, ao contrário dele, antes que fosse tarde, resolvi investir minha energia e libido em outras atividades.

 

Meu carinho por ela, entretanto, sempre será eterno.

 

E no cenário do “tudo possível”, sim, ela seria a mãe da minha filha.

ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL)
Enviado por ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL) em 07/09/2025
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