
Como diz Deleuze sobre achar uma essência para o “eu” do esquizofrênico que o reconduza para que o olhemos com amor e piedade — ou, ao contrário, para que cuspíssemos com nojo de sua imagem.
Assim também vemos o dependente químico. Porém, passamos muito pano para aqueles que se entregam livremente ao vício dos alimentos hipercalóricos, que são hoje a maior fonte de morte de doenças crônicas.
Já citei o documentário Muito Além do Peso, no qual um garoto de apenas 4 anos já sofre de hipertensão, diabetes e doenças irreversíveis. Eu, que fiz uso de cocaína por 10 anos e que atualmente tenho uma saúde acima da curva de Gauss, com menos de 10% de gordura corporal, nível de atleta, sobrevivi. Ele, em apenas 4 anos, devido à alimentação, sentenciou sua condenação de morte — por falta de informação, sim, mas também por se entregar a prazeres hedonistas e fáceis.
A obesidade é, portanto, uma incompatibilidade evolutiva do ser humano.
O ser humano foi feito para se locomover longas distâncias. Seu sistema de dopamina foi moldado para buscar comida em estoques reduzidos, em meio a perseguições, corridas, fugas, estresse e comunicação.
Não foi feito para ficar sentado, escrevendo ou se comunicando apenas por emoticons no Instagram.
Não há diferença entre um obeso e um viciado em drogas.
O Eslen Delanogare fez 31 anos.
E essa foi a melhor frase de parabéns que a namorada dele, que se diz entusiasta de livros, conseguiu escrever para ele.

Sim: ela, que é médica, que lê, que posa de intelectual, ao homenagear o pai de sua filha, não consegue escrever mais de quatro palavras sem colocar um emoticon. Não sabe usar sequer um vocativo.
O próprio Eslen tem uma aula em que cita uma amiga dermatologista dizendo que as pessoas estão desaprendendo a linguagem. Pois a própria esposa dele não consegue, no dia mais importante do pai de sua filha, expressar em palavras o quanto ele é especial.
Isso, apesar de se dizer leitora e entusiasta de livros.
Nós, seres de linguagem, chegamos aos médicos incapazes de articular o que sentimos. Falta-nos pensamento porque falta linguagem. E, sem linguagem, não há diagnóstico possível.
Que qualidade tem o pensamento de um médico que não tem vocabulário, que não tem repertório, que não tem conteúdo para pensar? Que não tem conceitos e ideias, que assiste a um filme, lê um texto, mas, em datas importantes ou em situações íntimas, não consegue discursar sobre nada — nem mesmo sobre seu marido?
Na verdade, ela está com Eslen apenas porque ele tem relativo sucesso. Convenhamos: até que ela é bem bonita. Mas é o exemplo mais arrebatador da escassez e da inflação do mercado afetivo — como naquela imagem do carrinho cheio de dinheiro sem valor que citei.
Sinceramente, eu espero mais de uma mulher do que sua beleza, mais do que seu corpo, mais do que um fetiche, mais do que o Xvideos, mais do que minha hipersexualidade de quando usava cocaína e queria transar com qualquer uma.
Mas, e depois? O que sobra depois do orgasmo, depois que o efeito do entorpecente passa?
O conteúdo permanece. A banalidade da parceira também. Eis a diferença entre o que é consistente e o que é efêmero.
O trabalho que fiz comigo mesmo, minha consistência, meus estudos, minha disciplina — tudo isso foi construído em anos. Minha elegância, minha distinção, por mais que tentem diminuir, continuam intocáveis.
Eu não sou obeso. Não sou um viciado. Não sou um desajustado evolutivo.
Sou distinto. Uma hora a sorte vai virar a meu favor.
Agora, os banais, os obesos, os desinteressantes, os mornos — esses permanecerão desadaptados. E, como diz a lei das espécies, serão extintos. É a lei dos mais adaptados, da biologia, dos melhores genes, da raridade.
Uma hora, a sorte muda.