
Vocês sabem que sou um grego à moda antiga. Afinal, foram eles que inventaram as Olimpíadas, com o cuidado que tinham tanto com o corpo quanto com o intelecto.
Mas, diferentemente deles, que cuidavam do corpo apenas para que ele não atrapalhasse a alma, para mim corpo e alma são indissociáveis. O corpo é a alma.
Me preparando para a temporada 2025 da NFL, eu assinei o único canal de membro do qual faço parte no YouTube: o de Antony Curti, que faz análises dos 32 times da liga, além de trazer notícias, documentários e contar sobre a história do jogo.
É um conteúdo completo, que vale pagar pouco mais de 10 reais para ser membro.

O que prova meu bom gosto para escolher conteúdo é que a Rede Globo também escolheu — ou melhor, roubou — o Antony da ESPN para ser o comentarista principal da NFL agora que ela passará a transmitir a liga.
Com a chegada à emissora mais popular, é possível que a NFL se torne ainda mais conhecida no Brasil, que já é hoje um dos países fora dos Estados Unidos onde o esporte mais cresce. E o Itaquerão vai receber simplesmente o melhor time da atualidade, com o melhor quarterback Patrick Mahomes, que tem o potencial de se tornar o maior de todos os tempos.
O confronto será contra outra grande equipe e outro grande quarterback — embora pipoqueiro — Justin Herbert.
A liga de Roger Goodell, o executivo da NFL, soube escolher um dos melhores jogos possíveis para praticamente abrir a temporada, que já começou ontem com a vitória dos Eagles, atuais campeões da NFL.
Esse ano eu me preparei mais do que nunca: estudei os times, os elencos e o Draft — o sistema de escolha dos jogadores que vêm das universidades.
Diferentemente do futebol, os piores times são agraciados com as primeiras escolhas, pegando os melhores talentos que surgem do college. É quase um sistema de checks and balances, um “socialismo norte-americano” que equilibra a liga.
A magia do futebol americano é que ele traduz os conceitos de Aristóteles:
Dynamis (potência): aquilo que o jogador pode vir a ser, o talento bruto, a possibilidade.
Energeia (ato): aquilo que ele efetivamente realiza em campo, a atualização constante de sua potência.
Ou seja: talento não é nada sem atualização contínua.
E é por isso que nem sempre as primeiras escolhas do Draft vingam. Muitos chegam como estrelas universitárias, vencedores do Heisman Trophy — prêmio para o melhor jogador do college — mas acabam se perdendo.
Lembremos de Johnny Manziel, o “Johnny Football”, um verdadeiro Neymar universitário que chegou à NFL e afundou por causa do extracampo. O episódio em que foi flagrado no banheiro fazendo um canudinho com uma nota de 100 dólares é autoexplicativo: quem faz isso tem um objetivo muito claro.
Houve também RGIII (Robert Griffin III), primeira escolha do Draft, que foi vítima das lesões.
E o caso de Colin Kaepernick, que levou seu time ao Super Bowl, mas foi silenciado por protestar contra o racismo. Hoje é lembrado mais pelo gesto do que pela carreira, injustamente encurtada.
Em contrapartida, o jogador mais famoso no Brasil, por ser marido da Gisele Bündchen, Tom Brady, foi uma das últimas escolhas — saiu na sexta rodada. O azarão, ignorado, tornou-se o maior de todos os tempos.
E desde então os times buscam o “novo Tom Brady”: o trabalhador, o improvável que explode pelo esforço. Como o quarterback dos 49ers, Brock Purdy, que entrou apenas porque os titulares se lesionaram, mas estava preparado e virou protagonista.
Claro, há exceções: Joe Burrow, campeão já como calouro, vencedor do Heisman e líder da LSU no título universitário. Ou Peyton Manning, talvez o Maradona do futebol americano: cerebral, técnico, o segundo melhor da história, logo atrás de Brady.
Falo tanto de quarterback porque ele é a dama, a rainha do xadrez, a peça mais poderosa.
Ele precisa ser inteligente, entender todo o plano de jogo, processar informações em segundos, soltar a bola rápido, fazer progressões quando a primeira opção está marcada.
O quarterback de elite tem braço forte, mas também precisão cirúrgica nos passes curtos e laterais, que são os mais difíceis.
E hoje veremos o mais mágico deles: Patrick Mahomes.
Se antes o quarterback ficava preso no pocket, protegido pela linha ofensiva, Mahomes se reinventa: corre, ganha jardas com as pernas, lança em movimento e até contra a inércia do próprio corpo.
Ele é, sem dúvidas, o mais talentoso e mágico de todos os tempos.
Mesmo quem não entende nada de futebol americano deveria dar uma chance: ligar o SportTV hoje e vê-lo em ação.
Mas a magia não está só no quarterback. Está no atleticismo de quem recebe passes, na brutalidade de quem pressiona, na versatilidade de quem bloqueia.
O futebol americano é quase darwiniano. Opera uma seleção natural, mas há lugar para todos os biotipos. Os gigantes da linha ofensiva, os velocistas dos wide receivers, os híbridos como os tight ends.
Mas há também limites biológicos. Por exemplo: quarterbacks muito baixos quase nunca vingam. As exceções — Drew Brees (1,83 m) e Russell Wilson (1,80 m) — tiveram que superar tudo: Brees com inteligência absurda, Wilson com mobilidade fora do comum.
O jogo também é fascinante pelo lado dos treinadores. Antigamente, baseava-se em corridas físicas. Depois, veio a era do passe longo, o big play.
Mas uma revolução surgiu com Bill Walsh, criador do sistema West Coast Offense: em vez de corridas previsíveis, ele priorizou passes curtos, rápidos e cirúrgicos, explorando a versatilidade de jogadores híbridos — como Travis Kelce, que hoje é mais lembrado por ter se casado com a insossa, tanto musical quanto em aparência, Taylor Swift, presença certa no favelão desta noite.
Esse estilo não busca explosões repentinas, mas sim dominar o relógio, manter a posse e esgotar o adversário até que ceda.
Atualmente, técnicos como Andy Reid, que veremos em ação, Sean McVay e Kyle Shanahan são herdeiros diretos dessa árvore genealógica de inovação — discípulos de um pensamento que mudou para sempre a lógica ofensiva do futebol americano.
Não vou explicar todas as regras — isso seria como explicar sexo: você entende na prática.
Mas deixo o convite: comecem pelo jogo de hoje, no Brasil, que será um dos melhores possíveis. Vai passar no YouTube e na Globo.