
Tchekhov, Keats, Arthur Conan Doyle, Guimarães Rosa — o que eles têm em comum?
Não, não é que escolheram a profissão de médicos, ainda que todos tenham formação médica. Se pensou nisso, errou feio, errou rude.
E José Saramago, Ariano Suassuna, Michel Foucault, Machado de Assis, Carlos Drummond de Andrade, Kafka?
Se você disse que todos eram formados em Direito, também está profundamente equivocado.
A verdadeira coincidência entre todos eles é esta: são pensadores, filósofos, literatos — e suas profissões não têm nada a ver com isso. Nenhum médico entrou para a história por salvar vidas numa cirurgia. Isso não fica registrado na história, não vira cinema. Advogados, idem.
É como disse Jean-Luc Godard: Van Gogh sempre será mais importante que o marceneiro que construiu seu cavalete. Ainda que fosse um belo cavalete. A analogia vale para o médico, o engenheiro, o advogado — por mais competentes que sejam.
Prefiro o exemplo de Suassuna, que dizia que, em sua época, não havia tantas opções. Quem gostava de abrir barriga de rã virava médico; quem sabia somar, virava engenheiro; e quem não sabia fazer nada… virava advogado.
Ou seja: a profissão era sobrevivência, acaso, oportunidade. A criação literária, não — ela é o que imortaliza. Isso sim é alta performance.
Existe uma linha tênue entre a alta performance e a patologia. Atletas, por exemplo, sacrificam saúde, sono, liberdade e sanidade por desempenho — e por dinheiro. Não tão diferente dos profissionais “respeitáveis” que mencionei acima.
O atleta não é uma condição ontológica. É um estado. Um momento. Uma prática. Tanto é que muitos, ao se aposentarem, engordam, abandonam a disciplina, somem. Pararam de “ser” atletas. Porque nunca foram — estavam.
A minha profissão atual é ser atleta. E para isso, todas as minhas decisões — desde onde coloco meu dinheiro até como invisto meu tempo — passam pelo crivo da escolha mais importante: viver bem.
Mas não estou falando de “vida boa” no sentido burguês. Falo de vida boa como potência. Minha escolha profissional parte da liberdade sartreana de existir com responsabilidade sobre minha ação.
A alta performance que busco não é de rendimento físico apenas, mas de ser humano: minha imagem, meu pensamento, minha criação. Tudo isso passa pela saúde — e para mim, isso é o auge do alto rendimento.