
Talvez, depois de Elvis, ninguém na música tenha sido tão vanguardista quanto Bowie. Fez de tudo antes de qualquer um ter feito alguma coisa. Um camaleão. Teve várias personas e identidades.
Surgiu nos anos 60 com um folk psicodélico e imortalizou o personagem Space Oddity, o Major Tom. Seus discos consagraram os álbuns temáticos e conceituais, como poucos. Um gênero que depois rendeu obras como Funeral, do Arcade Fire (um lamento sobre a perda de um filho), Yoshimi Battles the Pink Robots do Flaming Lips, Plastic Beach e Demon Days do Gorillaz — todos discos que eu amo, verdadeiras fusões entre música e quase-arte.
Mas foi nos anos 70 que Bowie ultrapassou todos os limites, com Ziggy StarDust. Inspirado nesse personagem em 1976, estrelou o icônico alienígena no filme “O Homem que Caiu na Terra”, dirigido por Nicolas Roeg (aquele que foi diretor de fotografia de Lawrence da Arábia). O filme está disponível no MUBI, pra você assistir agarradinho com sua gata neste Dia dos Namorados.
Depois veio Halloween Jack, a fase inspirada em 1984, de Orwell. A seguir, a fase soul do disco Young Americans, onde Bowie era um branquelo magrelo e cocainômano. No final dos anos 70, minha fase favorita: a Trilogia de Berlim, de Heroes, em que ele aparece no filme alemão Christiane F. — aquele muito apropriado para ver com a cremosa neste 12 de junho: menina de 14 anos, drogada e prostituída. Um baita filme romântico.
Em seguida, vieram a fase disco e o pop estourado de Modern Love (talvez minha música preferida dele) e Let’s Dance.
Após um hiato nos anos 90, Bowie retornou nos anos 2000. Seu último disco, lançado em 2013, foi The Next Day. Ao contrário de tudo o que ele havia feito antes, esse álbum é sóbrio, minimalista e despersonalizado. A capa traz o rosto de Bowie… apagado. Um retrato paradoxal: o homem de mil rostos sem rosto algum.

Um testamento íntimo, que recusa personagens e aparências. Três anos depois, ele morreria. Como David Bowie, o gênio — um desfile de personas, que nos deixou a si mesmo através de sua obra.
Minha música favorita desse último disco é justamente Valentine’s Day, que dá título a este texto e que incluí na homepage do meu site:
👉 daveledave.recantodasletras.com.br
Essa é a minha homenagem a todos os amantes, com ou sem namorada.
Feliz Dia dos Namorados.
Com amor (e Bowie),
Dave Le Dave