
Ovídio relata, no seu poema do amor, lindamente, como Menelau foi traído por Helena:
“Durante a ausência de Menelau, Helena, para não ficar mais sozinha à noite, encontrou um tépido asilo nos braços de seu hóspede.
Que grande erro foi o seu, Menelau! Você partiu sozinho, deixando sob o mesmo teto seu hóspede e sua esposa.
A um abutre, você confia, insensato, tímidas pombas; ao lobo das montanhas, você confia um curral de ovelhas bem-tratadas.
Não, Helena não é culpada, seu amante não é criminoso.
Ele fez o mesmo que você ou o que qualquer um teria feito.
Você os forçou ao adultério, ao fornecer-lhes o tempo e o lugar.
Que outro conselho além do seu seguiu sua jovem mulher? Que podia fazer?
Seu marido não está lá, mas há um hóspede que não é rude, e ela teme repousar sozinha num leito que você abandonou.
Que o filho de Atreu pense o que quiser: eu absolvo Helena; ela aproveitou a condescendência de um marido benevolente.”
A traição sempre surge de uma falta. Porque não basta o homem ser apenas uma coisa só: só marido, só bom pai, só bonito.
Se ele não for interessante, instigante, inteligente — ou se negligenciar sua parceira no aspecto sexual ou emocional —, ele está entregando o próprio lar ao tédio, e o tédio é fértil para a traição.
Ou pior: o sujeito começa a se descuidar da sua parceira e de si mesmo. Esquece a higiene pessoal, o corpo, a elegância, o conteúdo.
Vira um gato velho de armazém, aquele que já teve dono, mas hoje só ganha migalhas. Todo mundo dá um pedaço de qualquer coisa pra ele, e por isso não quer mais caçar.
Esses são os que veem o chifre crescer gradativamente, milimetricamente. Igual nesse quadro do Hermes e Renato: