
Pai, dizem que quando uma coisa boa acontece em nossas vidas, não é por acaso, mas por sua influência.
Hoje, o acaso — no mundo pós-moderno — se chama algoritmo.
Como no filme do filho que filmou seus próprios Dez Mandamentos, Kieślowski , em um dos episódios há a presença de um Deus-Ex-Machine: uma máquina que prevê, faz previsões… e erra. Muito antes do ChatGPT, ela não previu a densidade do gelo. E, ao patinar, o filho do dono do computador morreu.
Ali, o episódio era sobre não cultuar falsos ídolos, como o computador.
E eu me pergunto, Pai: o algoritmo moderno seria um falso ídolo?
Abra nossos olhos para a verdade.
Verdade ou mentira ou acaso…
Hoje o algoritmo me mostrou essa linda versão da música do Gorillaz, ao vivo, do disco Plastic Beach —
“On Melancholy Hill” acústico.
LINK 🔗: https://youtu.be/F_NB4BQy8Ng?si=bLCVlpZM5BdAHOfF
E eu andei pensando: nada mais apropriado do que me comunicar contigo por escrito. Afinal de contas, Deus é o Verbo,
seu ser é o nível ontológico.
E os entes criados por Deus estão no nível ôntico.
Essa metafísica inspira a linguagem.
A obra é tua, meu Pai.
É por isso que escrevo a ti toda noite.
Essa minha capacidade de recuperação, de superação —
agora que todos veem o resultado, todo mundo quer se dizer responsável.
Porque, como dizem, filho bonito todo mundo quer ser o pai.
Mas o exclusivo responsável pela minha remontada sou eu mesmo.
Porque se fosse tão fácil ficar saudável, culto, escrever, ler, ter sabedoria para se recuperar do estado de morbidez…
todo mundo faria.
Não haveria viciados, burros, ignorantes, sedentários, médicos colombianos etc.
Todo mundo seria incrível.
Mas quando você é igual ao Gregor Samsa, um inseto, todos te rejeitam.
E não há o que interpretar diferentemente: o fantástico da literatura interpreta o que não há.
O livro fala de “A Metamorfose” como doença real, como um adicto.
À margem, é um inseto.
Mas quando provém, sustenta a família, o pai e os estudos da irmã —
todos o querem.
Mas quando vira um inseto inútil, é morto pela própria família.
E infelizmente, na sua criação, Pai,
Deus criou o egoísmo, talvez para provar constantemente seus filhos.
Em Ecce Homo, Nietzsche faz o contraponto entre os decadentes e os saudáveis.
Você pode até adoecer, mas o fato de não se entregar à doença,
de curar-se — ou mesmo, na doença, conseguir criar —
essa capacidade de curar-se a si mesmo mostra que, predominantemente, o que tu és…
Contrário do decadente, você é ativo, criador.
E obrigado por não me conceber um decadente,
e de fato me criar à sua imagem e semelhança.
Como diz o Pastor Ed René:
alguns homens são apenas semelhantes a Deus, e esses, no juízo, irão ficar.
Mas os que são a imagem criadora de Deus
vão criar com o Pai no céu.
Amém.
