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DAVE LE DAVE
SIM, ELE MESMO
Textos

ADORO O MEU TRABALHO. E MELHOR: AINDA ME PAGAM!

 

A Mesa que Reflete a Minha História

O pessoal do trabalho gosta de me falar que minha mesa parece uma quintada de tanta coisa que tem. Tem ventilador portátil, café, agendamentos, adoçante… Aí, para me sacanear, o doutor colombiano trouxe ketchup da cozinha e colocou em cima, a quem, inclusive, eu sirvo muitos cafés da máquina, que é minha, que eu levei de casa para tomar café. Também brincam se podem levar planta de casa, porque, se eu levo até a máquina de café, quer dizer que estão em casa, né?

 

E, do jeito que minha mesa é (des)organizada, ela reflete as minhas coisas dentro de casa. Quem me vê sempre bem arrumadinho não imagina o caos do meu quarto, se não fosse minha mãe dar uma coerência. Mas é nessa bagunça que eu me entendo e me sinto confortável. Meu método de aprendizado é o caos criativo. De certa forma, isso reflete a organização do universo, essa dança cósmica das energias que entram em conflito caoticamente, mas que se harmonizam e se expandem, criando tudo o que há no universo. Esse é o meu método de aprendizado.

 

É que a relação deles com aquele posto de saúde é muito diferente da que eu tenho. Sem aquele lugar, eu não seria quem sou hoje. Ele é como se fosse a extensão do quintal de casa. Eu cresci naquele lugar desde pequeno. Ninguém que está ali conhece mais do que eu. Só a minha mãe, obviamente. E nada mais justo que eu acabasse trabalhando lá no momento em que eu precisava, fazendo a mesma tarefa que minha mãe. A vaga foi ela quem arrumou para mim, um “penduricalho” na prefeitura.

 

Mas também, eu trabalho só 6 horas em contrato, e acabo trabalhando efetivamente 4. Mas, nas 4 que trabalho, produzo por 12. Eu não ganho bem, mas nada me falta. E, pelas horas que trabalho, meu amigo J. falou que recebo proporcionalmente por horas trabalhadas mais do que ele, que é professor de colégio e PhD, doutor de verdade. Não igual aos médicos que reivindicam esse título na carteirada e o vulgo chama de doutores. Eu sei coisas do posto que escapam do entendimento de todos meus colegas. Frequentei a mansão de doutores que eram chefes, casas de doutoras, peguei carona… Sempre andei no meio de gente de branco. E minha mãe fez de tudo, na verdade, ela é auxiliar de enfermagem, mas foi reduzida a mera escriturária. Porém, ela entende de saúde quase igual a uma enfermeira que ajuda diretamente a ginecologista.

 

Hoje, ela faz agendamentos de consultas. É muito descaso com uma servidora pública. Mas a minha gratidão por esse local é imensa, porque ele foi a fonte de renda financeira que permitiu à minha mãe me educar. Quando eu fiquei sem rotina, vivendo na minha montanha mágica e também no ciclo destrutivo, foi esse local que sustentava meus estudos e, às vezes, até meu vício. Porque meu dinheiro da venda da empresa e do roubo não era eterno, com a vida nababesca que eu levava. Foram 8 anos de ócio criativo, de aprendizado, uma faculdade particular, autônoma, igual o próprio Hans Castorp. E, assim como ele, hoje estou de volta à guerra. Mas sou e preparo.

 

A Complexidade das Relações no Trabalho

O serviço na prefeitura, além de me dar uma rotina, me dá um sentido de ser útil ajudando pessoas necessitadas. Eu adoro atender os mais humildes, gente do povo. Atendo com o maior zelo e atenção, e me sinto bem no final do dia. Por isso, adoro o que faço, que até faria de graça para ter uma atividade e não ficar parado. Mas ainda me pagam um valor mais do que justo. Eu faço valer a pena, porque, nas 4 horas que fico no local de trabalho, trabalho por 12. E só não fico mais pelo cansaço. E porque não sou trouxa também.

 

A Visão de Mundo e a Convivência Social

Mas aí entra a questão da discussão do grupo da empresa, e talvez tentarem me diminuir ou deslegitimar minha opinião, porque sou novo no ambiente e não estou no topo da hierarquia do serviço público. Na minha última discussão com um bolsonarista, que disse que o grupo de WhatsApp  era restrito apenas a questões de trabalho, eu dei uma resposta abrangente. A visão dele, como a de muitos bolsonaristas, é uma mediocridade esperada, mas o pior é que, apesar disso, eu gosto e respeito ele como funcionário. Não ataco a pessoa, mas a visão de mundo dela. E a dele é estreita e ignorante.

 

Falar que um grupo de WhatsApp de trabalho deve ser restrito a assunto relacionado ao trabalho é de uma ignorância tal que me parece um contra-senso. Se não fosse o trabalho, disciplinas como economia e sociologia nem existiriam. Ora, a economia analisa a relação do dinheiro na sociedade, e o dinheiro só é adquirido por meio do trabalho. E o trabalho só existe por meio de relações sociais, pois não há trabalho sem relações. Logo, se há um meio social no trabalho, e relações entre as pessoas, há um campo social que é analisado pela sociologia. O WhatsApp, então, é um microcosmo social dentro do macrocosmo que é a sociedade, que a sociologia estuda.

 

Ora, se não fossem as relações sociais dentro do trabalho, Marx não teria escrito O Capital, analisando as implicações econômicas e sociais das relações sociais no trabalho. Max Weber não teria escrito A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, mostrando como as relações sociais e culturais influenciam o desenvolvimento do capitalismo, fazendo com que a busca por lucro seja vista como um símbolo de predestinação divina, algo a ser alcançado pelo capitalista. Émile Durkheim não teria escrito A Divisão do Trabalho Social (1893), estudando como a divisão do trabalho é central para a organização social moderna e como a solidariedade orgânica é criada entre os indivíduos em sociedades mais complexas.

 

E para não falarem que só cito autores de esquerda, David Harvey não teria escrito O Neoliberalismo: História e Implicações (2005). Harvey, geógrafo e sociólogo, estuda o neoliberalismo e sua relação com o capitalismo global, abordando como as relações sociais no trabalho são moldadas pelas políticas econômicas e como as mudanças nas relações de produção afetam a vida cotidiana dos trabalhadores. Sua análise é crítica do neoliberalismo e de como ele exacerba as desigualdades no trabalho e na sociedade.

 

Portanto, ser bolsonarista não é um argumento para justificar a ignorância. FIM. Eu continuo “mitando” no grupo, só faltou ele usar o argumento da carteirada, tipo “você sabe com quem está falando”, porque ele é como o subchefe do posto, apesar de estar há menos tempo do que minha mãe. E eu, por outro lado, frequento o lugar desde que eu bebê, onde já passaram gerações da minha família, meu irmão, eu e meu sobrinho.

 

Aí, meu prazer de desmascarar a ignorância dele seria ainda maior, porque dar carteirada dessas já é perder a discussão. Bastaria eu jogar no WhatsApp os argumentos que apresentei aqui ou simplesmente encaminhar o link do meu teste, e ele se calaria definitivamente, o que levaria, dedutivamente, à extinção do grupo. E eu estou em casa, porque o posto é a minha casa.

 

ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL)
Enviado por ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL) em 10/03/2025
Alterado em 10/03/2025
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