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DAVE LE DAVE
SIM, ELE MESMO
Textos

EU TENHO 33 ANOS; NÃO 14!

 

A Arte de Envelhecer: Uma Trilha Sonora Pessoal

Este texto, a princípio, seria a continuação da minha crônica sobre a adolescência. Mas, como sempre, um assunto atropela o outro, e eu prefiro não requentar um texto antigo quando posso escrever algo novo, inédito. Quero falar sobre a arte de saber envelhecer, usando a música como trilha sonora e cenário — porque ela não apenas acompanha o tempo, mas o molda, inspira e embala o amor.

 

Sob a influência do meu irmão, a música entrou na minha vida desde tenra idade. Não sei precisar quando, talvez aos oito anos. Lembro-me de ouvir Vivendo e Não Aprendendo, do Ira!, e de como “Quando me sinto assim, volto a ter 15 anos” me transportava para uma idade que, na época, parecia tão distante que eu duvidava que um dia chegaria lá. Pois bem, hoje tenho 33.

 

Em Shakespeare, o bobo diz ao Rei Lear: “Pobre Rei Lear, que ficou velho e não ficou sábio.”

 

Essa passagem ecoa a importância de saber envelhecer — um desafio que nem todos enfrentam com dignidade.

 

O Paradoxo da Juventude Congelada: Julian Casablancas e os Strokes

Penso nisso ao lembrar de uma entrevista recente de Julian Casablancas, ex-vocalista dos Strokes, no The Tonight Show de Jimmy Fallon. Ele estava lá para divulgar uma parceria com Charli XCX, mas o que me chamou atenção foi outro detalhe: Julian, que já deve estar beirando os 50, mais velho que meu irmão, apareceu de madeixas tingidas de loiro, trocando o rock underground imponente dos tempos áureos dos Strokes por uma incursão no pop. Oi?

 

Para contextualizar, os Strokes foram uma das bandas mais importantes do revival do rock no início dos anos 2000, uma era em que o gênero estava praticamente morto. Junto com os suecos do The Hives, ajudaram a reacender a chama do garage rock, abrindo caminho para nomes como The Vines, Muse e, mais tarde, Franz Ferdinand, Kasabian e Kaiser Chiefs. Os Arctic Monkeys, surgidos em 2006, já eram quase pupilos diretos dessa escola.

 

A Estética Impecável: A Revolução do Som e da Imagem dos Strokes

O som dos Strokes era algo totalmente original. Diferente de tudo e, ao mesmo tempo, familiar, como se sempre tivesse estado ali, esperando para ser descoberto. Todos vinham de famílias ricas. Julian Casablancas, o vocalista, é filho de John Casablancas, fundador da renomada agência de modelos Elite, e de uma ex-modelo dinamarquesa. O baterista, Fabrizio Moretti, é brasileiro e também tem um projeto paralelo muito bom com Rodrigo Amarante, dos Los Hermanos, chamado Little Joy — que, apesar da presença dele, é ótimo. O baixista é Nikolai Fraiture. Os guitarristas, Albert Hammond Jr. e Nick Valensi, completam a formação da banda que, por um tempo, foi a mais cool do planeta.

 

Cada integrante tinha um estilo próprio que tornava a estética da banda inconfundível. Enquanto Valensi segurava a guitarra abaixo dos joelhos, relaxado e despretensioso, Nikolai tocava o baixo com a precisão de um robô. Albert, por sua vez, empunhava a guitarra na altura do peito, à la Beatles. Moretti oferecia uma bateria enxuta e cirurgicamente precisa, enquanto Julian, jovem e bonito, parecia cantar sem esforço. Seu olhar blasé e hipnótico dava a sensação de que era o microfone que o segurava, e não o contrário. Nenhum movimento era brusco — tudo parecia calculadamente elegante e desinteressado.

 

A Queda de Uma Lenda: A Maldição do Terceiro Álbum e o Fim da Era de Ouro

O som dos Strokes não remetia a nada e, ao mesmo tempo, condensava influências sutis. Uma guitarra-base ditava o ritmo enquanto a outra criava a harmonia; o baixo entrava suave, equilibrando tudo, perfeitamente alinhado com a bateria e solos moderados, envolventes, sem excessos. Eram os Ramones evoluídos, mais sofisticados em termos de acordes e sonoridade. Os Ramones com solos de guitarra. As músicas, no máximo, duravam três minutos e meio, terminando sempre no tempo exato, sem sobras nem faltas, com um compasso perfeito. Se há alguma comparação possível, talvez seja com Television ou com a guitarra cortante de Andy Gill, do Gang of Four.

 

O primeiro disco, Is This It, talvez seja o que mais ouvi na vida — quase furou de tanto rodar. O segundo, Room on Fire, é tão bom quanto. São dois álbuns que se pode colocar para tocar da primeira à última faixa sem pular nenhuma. Mas então veio a maldição do terceiro disco e, dali em diante, a discografia perdeu o brilho.

 

A Música Como Refúgio e Redenção: Albert Hammond Jr. e a Batalha Contra os Demônios

Julian seguiu carreira solo e lançou algumas músicas boas, até eu descobrir esse projeto descabido com Charli XCX. Já Albert Hammond Jr. também trilhou seu caminho fora dos Strokes, e seu repertório solo traz canções excelentes, como Hard to Live in the City, que chegou a integrar a trilha sonora de Gossip Girl, entre outras joias espalhadas por sua discografia. Mas sua trajetória foi marcada por uma batalha difícil: ele enfrentou e ainda enfrenta grandes problemas com a dependência química, especialmente da cocaína. Ela, junto com o álcool, já ceifou tantas carreiras e vidas que nem conseguimos contar.

 

O Amor Como Força Redentora: Blur, Britpop e a Cura Pela Arte

E é aqui que quero falar do poder revitalizador da música. Porque se, para alguns, ela se torna uma armadilha de excessos, para outros, pode ser um resgate. E faço um paralelo com outra banda: Blur.

 

O primeiro disco do Blur, Leisure, de 1991, trouxe alguns singles marcantes, como She’s So High e There’s No Other Way. Mas foi com Sing que a banda deixou uma marca profunda na cultura pop, ao integrar a trilha sonora do icônico Trainspotting – Sem Limites, filme de Danny Boyle inspirado no livro Trainspotting, de Irvine Welsh.

 

O Blur nasceu em Chelsea, de classe média-alta, e se tornou um dos expoentes do Britpop, emergindo no início dos anos 90 ao lado de seus rivais declarados, o Oasis. Mas enquanto os irmãos Gallagher representavam a Manchester operária, barulhenta e desbocada, Damon Albarn e companhia carregavam um ar mais sofisticado e artístico, moldado pela classe média londrina.

 

A Disciplina da Superação: O Conflito Interno e a Arte de Evoluir

O segundo disco, Parklife, é uma obra-prima. Difícil escolher uma faixa favorita, pois o álbum inteiro transborda genialidade. Dá para ouvir quase do começo ao fim sem pular nada — salvo umas duas ou três faixas que, mesmo boas, ficam abaixo das demais, simplesmente porque o nível geral é alto demais.

 

E então vem a velha questão: quem foi melhor, Blur ou Oasis?

O Blur tem claramente mais repertório musical, influenciado principalmente por seu líder Damon Albarn e o guitarrista Graham Coxon. Enquanto o Oasis conta apenas com a genialidade composicional de Noel Gallagher. O Blur mistura shoegaze, acordes meio eletrônicos, como na faixa Boys and Girls(enquanto o Oasis tenta imitar os Beatles). Só que, ao meu ver — e, quem diria, até ao ver do nada modesto Noel Gallagher —, algumas vezes o Oasis até supera os Beatles. E, de fato, os dois primeiros discos do Oasis, Definitely Maybe e What’s the Story Morning Glory, são superiores aos dois primeiros do Blur. Embora Parklife e Morning Glory estejam ali, lado a lado, competindo em termos de qualidade!

 

O Valor da Amizade e da Superação: O Impacto Pessoal na Música de Graham Coxon

Mas o que quero dizer é que, devido aos problemas com álcool e drogas, Graham Coxon se afastou da banda. Segundo um documentário que vi, ele passou a se envolver mais com atividades artísticas, e seus ciclos de amizade envolviam designers de interiores, pintores, entre outros. Porém, ele escreveu uma música sobre essa fase e sobre a importância do amor na recuperação. Mas engana-se quem pensa que foi o amor de uma mulher. O amor que ele fala é o amor de seu amigo de banda, Damon Albarn:

 

Sad, drunk, and poorly

(Triste, bêbado e mal)

Sleeping really late

(Dormir muito tarde)

Sad, drunk, and poorly

(Triste, bêbado e mal)

Not feeling so great

(Não me sinto tão bem)

 

Esses versos refletem o vazio que ele sentia.

 

Mas aqui entra o amor.

 

And I feel the light in the night and in the day

(E eu sinto a luz durante a noite e durante o dia)

‘Cause you’re so great, and I love you

(Porque você é tão incrível e eu te amo)

 

O Questionamento Existencial: Damon Albarn e a Luta Contra o Abismo

Damon Albarn também passou por momentos difíceis, especialmente pela perda de um relacionamento com a mulher que amava. Essa dor refletiu em suas músicas, levando-o ao abuso de drogas e ao questionamento do sentido da vida. Como expressa em uma de suas faixas:

 

What am I to do

(O que devo fazer?)

Someone here is really not happy

(Alguém aqui realmente não está feliz)

Put myself on a line

(Coloquei-me na linha)

It seems I never got through to you

(Parece que nunca consegui falar com você)

So I wean myself off slowly

(Então eu me desmame lentamente)

I’m a darkened soul

(Eu sou uma alma escurecida)

My street’s all pop music and coke

(Minha rua é toda música pop e coca)

 

A Música Como Espelho: Envelhecer e a Busca por Sabedoria

Essa música é do disco Think Tank, cuja capa foi feita por Banksy, justamente o álbum em que Graham Coxon estava afastado, mas contém outra grande canção que expressa pessimismo: Caravan.

 

Caravan’s lost

(A caravana está perdida)

To the sun and the dust

(Para o sol e a poeira)

No one loves you

(Ninguém te ama)

When you are lost

(Quando você está perdido)

 

A Celebrada Energia de “Song 2” e o Mundo de Damon Albarn

A música mais famosa do Blur, que até mesmo quem não conhece a banda já deve ter ouvido, é Song 2. Cujo link compartilho abaixo:

 

BLUR: SONG 2 https://youtu.be/SSbBvKaM6sk?si=WUrf5Aa1mu54Pqw2

 

E é justamente aí que eles mostram que são uma banda mais plural que o Oasis: Damon Albarn, o vocalista e mente criativa por trás do grupo, também fundou o excelente projeto artístico e conceitual Gorillaz, que surgiu por volta de 2002 com o hit 19-2000 (versão remix). Em 2005, o Gorillaz lançou o ótimo disco conceitual Demon Days, que abordava temas como a destruição ambiental. Em 2009, veio o Plastic Beach, um álbum ainda mais esperançoso e pessoal, que, confesso, é o meu favorito.

 

Graham Coxon, por sua vez, também seguiu seu próprio caminho criativo, assinando a trilha sonora de um seriado excelente que só conheci por causa da pessoa que amo: The End of the F*ing World, disponível no Netflix. A série é uma verdadeira obra-prima, e a música de Coxon trouxe um toque único, encaixando perfeitamente no tom sombrio e emocional da trama.

 

A Música Como Força Vital

Por fim, a música é a força vital que atravessa gerações e os momentos de transição. Ela serve como um espelho das nossas quedas e ascensões, da dor que nos consome e da redenção que buscamos. O que vemos em bandas como Strokes, Blur e seus membros, como Julian Casablancas, Damon Albarn e Graham Coxon, é uma luta contínua contra os próprios demônios, onde a música é tanto um refúgio quanto um meio de expressão da vida e da morte. Cada nota, cada acorde, revela não apenas o talento de um artista, mas também sua vulnerabilidade. Envelhecer não é apenas acumular anos, mas aprender a se reinventar, como as bandas que mencionamos, cujas trajetórias mostram que é na adversidade e no renascimento da arte que encontramos a verdadeira sabedoria.

 

ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL)
Enviado por ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL) em 13/02/2025
Alterado em 13/02/2025
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