É comum que o leitor confunda o autor com seu eu-lírico, como se fossem a mesma pessoa, sem dissociá-los. Alguns escritores despertam sentimentos tão profundos em quem os lê que suas palavras parecem saltar da página e se tornar quase tangíveis.
Vou citar novamente Alline Danille, cuja escrita sensual, que às vezes flerta com o erotismo sem descambar para a vulgaridade, atiça e instiga a imaginação dos leitores. Muitos, imersos em suas histórias, acabam desejando a própria autora, imaginando-se vivendo com ela as aventuras que descreve—um convite ao de-leite (como ela mesma falou rs) e ao prazer.
No entanto, é essencial diferenciar o eu-lírico da pessoa real. A literatura é um jogo de máscaras, e confundir a obra com seu criador pode levar a interpretações equivocadas.
Brinquei, certa vez, sobre como algumas pessoas no Recanto das Letras poderiam sentir algo que vai além da amizade ou da admiração intelectual—algo próximo ao amor. Minha amiga Flora entrou na brincadeira, dizendo que amava o que eu escrevia.
Talvez, com sua sagacidade, ela soubesse diferenciar meus escritos, que de fato são maravilhosos (cof cof), da pessoa imperfeita e cheia de falhas que sou na vida real.
Aliás, tanto ela quanto Alline—e aqui preservo seus detalhes para manter o anonimato—fizeram questão de me procurar além do RL, estabelecendo um vínculo de amizade e demonstrando confiança. Elas talvez não saibam o quanto valorizo esse gesto.
Confundir a admiração por um escritor com amor é um erro que Nietzsche já alertava: a tendência de inverter causa e efeito.
Em Crepúsculo dos Ídolos, ele menciona um caso curioso: um autor que acreditava ter emagrecido devido a uma dieta específica, quando na verdade a perda de peso se devia ao seu metabolismo acelerado e à incapacidade de ingerir alimentos pesados. Ele acreditava na dieta, mas o real motivo era outro.
O mesmo ocorre com nossas emoções. Uma autora, que já apagou sua conta diversas vezes, dizia temer a chuva. Inicialmente, pensava que o medo vinha da tempestade, mas, com o tempo, percebeu que, na verdade, o pavor tinha outra origem: o abandono. Quando criança, temia que sua mãe esquecesse de buscá-la nos dias chuvosos. Ela inverteu causa e efeito, confundindo a tempestade com o real trauma por trás dela.
Esse tipo de erro é comum. Desde os tempos das cavernas, o desconhecido gera medo, e qualquer resposta, mesmo errada, parece melhor do que a incerteza. Assim, surgiram narrativas para nos confortar: a chuva como castigo dos deuses, o sofrimento como punição divina. No entanto, a realidade é mais simples—e mais difícil de aceitar.
Quando vejo uma mulher bonita permanecendo solteira, sempre penso que deve haver alguma razão oculta. Afinal, há tantos “urubus” ao redor. Muitas vezes, a solidão pesa, e a pessoa se apressa em se envolver com qualquer um, apenas para afagar o ego e evitar o vazio.
Nietzsche usa a metáfora das moscas do mercado para ilustrar esse fenômeno. O mercado representa a multidão, o senso comum, os valores do rebanho. Quando surge alguém com um espírito nobre, que não se encaixa nessa lógica, os outros farejam e tentam enfraquecê-lo, picando-o como moscas até que se torne mais um deles.
Por isso, o silêncio e a solidão são fundamentais. Há momentos em que precisamos nos afastar do barulho externo e ouvir nossa própria voz. Mas há quem não consiga fazer isso.
Algumas pessoas têm dificuldades emocionais que as impedem de se relacionar verdadeiramente. Seja por traumas do passado, ciúmes excessivos ou falta de confiança, acabam sabotando suas próprias relações.
E, em vez de enfrentar esses medos, preferem fugir—às vezes, de maneira dramática. Apagar perfis, sumir do mapa, buscar reações emocionais dos outros ao invés de resolver seus próprios dilemas. Mas isso não é força; é fraqueza.
O amor é uma virtude dos fortes. Desistir também pode ser um ato de coragem, mas fugir por medo do envolvimento é um sinal de covardia emocional.
Tenho 33 anos e, apesar da minha boa aparência, elegância e virtudes, nunca me envolvi seriamente com ninguém. Por quê?
Talvez pela dificuldade de compromisso, pelo meu histórico hedonista de busca por prazeres solipsistas, pela comodidade de morar com minha mãe. Mas tudo na vida é fase, como diz o Eclesiastes. E agora minha fase é de reconhecimento dos meus erros, crescimento e busca por um relacionamento verdadeiro.
Já deixei claro que estou sozinho e que, se me relacionasse com alguém, agiria com ética, diálogo e respeito. Mas isso não parece suficiente para certas pessoas. Elas querem reivindicar algo essencial em mim—algo que nem elas sabem definir. Talvez seja apenas um mecanismo de autossabotagem, um medo inconsciente de se entregar por completo.
A ironia é que, ao tentar fugir do senso comum, essa pessoa acabou caindo exatamente nele. Qual a atitude mais clichê do que evitar enfrentar seus próprios sentimentos, apagar perfis como uma criança emburrada e esperar que alguém corra atrás?
Mas agir assim não inspira amor. Pelo contrário: só gera cansaço.
E, se essa pessoa resolveu apagar seu perfil apenas para chamar minha atenção, sem nem ao menos demonstrar interesse real pelo que escrevo, isso significa que nem minhas palavras ela valoriza.
Então, o que exatamente ela deseja?
Se nem meus escritos essa pessoa sabe apreciar e não faz questão de estar presente no dia a dia, como poderia compartilhar verdadeiramente minha presença como um todo?