Partindo da biologia, do organismo primitivo, da célula elementar que dá origem ao ser humano e ao seu instinto reprodutivo, até a filosofia e a complexidade do raciocínio humano, eu pretendo explicar a essência humana relacionando-a com a teoria nietzscheana da vontade de potência.
Eu deveria terminar este texto apenas depois de concluir a leitura do livro A Vontade de Poder, que é um fragmento póstumo do filósofo, contendo ensaios e aforismos organizados por seu amigo Peter Gast e sua irmã. Nesse livro, Nietzsche aprofunda esse conceito. No entanto, me precipitei e decidi escrever já, com base no que assimilei e compreendi do que já li e ouvi a respeito.
Charles Darwin, como sabemos, cunhou o termo seleção natural para descrever como o ambiente seleciona organismos mais aptos a se adaptarem, favorecendo a sobrevivência dos mais aptos e eliminando os inaptos. Ainda na biologia, séculos depois, Richard Dawkins escreveu o livro O Gene Egoísta, cuja premissa central é que os genes são as unidades fundamentais da seleção natural. Eles “se comportam” de forma egoísta, no sentido de que sua única “meta” é se perpetuar através das gerações.
Os organismos (como nós, humanos, ou qualquer ser vivo) são vistos como “máquinas de sobrevivência” criadas pelos genes para garantir sua própria replicação. Nesse livro, surgiu pela primeira vez o termo meme, que descreve a tendência do ser humano a replicar tendências culturais, comportamentos, modas, gírias, como uma forma de sobrevivência em sociedade. Isso ocorre de forma análoga à reprodução dos genes, mas em nível cultural e não apenas biológico.
Finalmente, para Nietzsche, a essência humana é a vontade de potência. Genes, o instinto de sobrevivência darwinista, a tendência reprodutiva da cultura dos memes, nada mais são do que expressões dessa força que move e orienta a ação humana. Na visão de Nietzsche, o mundo é um aglomerado de forças que lutam entre si, cujo objetivo é alcançar sempre mais força, mais poder, intensificando-se. O ser humano não escapa dessa dinâmica.
A vontade de potência é um impulso criativo e expansivo, que busca superar limites, afirmar-se e transformar o mundo. Nietzsche acreditava que a vida não é um mero jogo de causas e efeitos, mas uma dança de forças criativas e destrutivas. Ora essas forças implicam um aumento de nossa energia vital, favorecendo nossa capacidade criativa; ora nos levam para baixo, trazendo sentimentos como o ressentimento.
De modo prático e menos teórico, a vontade de potência se expressa no mundo, por exemplo, quando faço uma exposição, seja em uma palestra acadêmica ou aula em uma universidade, seja em uma conversa de bar, ou mesmo na forma de um texto. Pode ser um texto acadêmico, escrito segundo a norma culta e utilizando termos técnicos, ou algo mais espontâneo, como em um espaço literário amador, como o Recanto das Letras.
Meu objetivo com o discurso é transformar o mundo, tornando-o mais parecido com aquilo em que acredito, que é a expressão da minha vontade de potência — meu modo singular de ver o mundo. Se o espectador, ouvinte ou leitor do meu texto ou discurso passar a replicar o que falei, como um meme (para usar o termo de Dawkins), o mundo estará mais próximo da maneira como eu o enxergo.
Essa é a minha vontade de potência em ação: a influência, mesmo inconsciente, sobre as outras formas do mundo. Todas as nossas ações, até mesmo aquelas revestidas de gestos altruístas e de caridade, têm como objetivo esse impulso egoísta de elevar nossa potência de agir, influenciando o mundo e tornando-o mais parecido com o nosso modelo ideal.
Nesse sentido, podemos notar que não existe ação desinteressada, pois toda ação oculta a vontade de potência de querer se fortalecer. Por isso, Nietzsche foi sempre um grande crítico de Kant, que afirmava que uma ação boa só seria verdadeiramente boa se fosse desinteressada. Ora, toda ação, mesmo revestida de caridade, esconde uma intenção por trás, que é a expressão da vontade de potência.
Por exemplo, Madre Teresa de Calcutá, ao ajudar milhares de pessoas e alcançar a santidade com isso, pode ser vista como alguém cuja vontade de potência encontrou, mesmo de forma inconsciente, um meio de se afirmar no mundo: através do altruísmo. É assim que a vontade de potência age.
Assim como o gene, na visão de Dawkins, a vontade de potência é amoral: não conhece bem ou mal. Ela apenas busca se expandir e se afirmar, por meio da liberdade criativa de criar novos valores e modos de existência que celebrem a vida e favoreçam o crescimento constante dessa força. É a essência não só de todo ser humano, mas também de tudo o que existe na Terra.