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DAVE LE DAVE
SIM, ELE MESMO
Textos

MUITA GENTE ME APOIANDO

Às vezes, não sei por que escrevo. Meu último texto, Tijolinhos Invisíveis numa Estrada de Mármore (clique no link para ler), singelo, honesto e esperançoso, talvez tenha sido lido apenas por mim. Nem mesmo a pessoa que amo, para quem escrevo e a quem me dirijo diretamente, aparentemente teve interesse em sequer abri-lo. Mas talvez seja esse o propósito: ser meu diário, meu lembrete, minha forma de terapia.

 

Hoje passei em consulta com a clínica geral do posto em que trabalho. Ela é um amor de pessoa: doce, compreensiva. Sabe do meu caso desde o início e deu todo apoio à minha mãe. Ela é do programa Mais Médicos, não é brasileira, é venezuelana. Fala muito bem nossa língua, mas, às vezes, é difícil compreendê-la completamente. Ainda assim, me deu bons conselhos: a importância de estabelecer uma rotina, de ter amor-próprio, de enfrentar esse processo doloroso pelas pessoas que amo. Conselhos práticos, que demonstram uma sabedoria do cotidiano.

 

Ela compartilhou sua experiência como médica, com muita sinceridade, e observou como a depressão, e muitas vezes o subterfúgio das drogas, atinge principalmente pessoas inteligentes, como eu (rs). Fiquei lisonjeado pela parte que me tocava. Segundo ela, pensar demais na vida, nos problemas do mundo, ou mesmo essa tendência de achar que podemos fazer tudo do nosso jeito, por nos acharmos superiores e acreditarmos saber algo que escapa ao conhecimento dos meros mortais, muitas vezes leva as pessoas a buscar prazer em outras coisas.

Ela não sabia dar uma resposta definitiva sobre isso, e tampouco eu, que estudo um pouco mais essas questões, consegui responder. Mas não a julgo; afinal, ela não é psicóloga nem psiquiatra, é uma clínica geral.

 

Ela concluiu dizendo algo interessante: que, embora as pessoas sejam inteligentes para lidar com abstrações, problemas complexos da existência, muitas vezes são inaptas para tarefas simples do dia a dia. Será que isso se aplica a mim? Não sei.

 

Eu diria que não. Por exemplo, não costumo lavar louça habitualmente, mas, quando preciso, faço bem. Já lavei mais de 100 pratos, talheres e dezenas de panelas industriais durante o período de internação, e, com a prática, aprendi a fazer direito. O mesmo vale para lavar roupa e faxina: sempre deixava tudo brilhando. E sei cozinhar bem também. Quando me proponho a fazer algo, faço bem feito. Então, nesse aspecto, acho que a carapuça não me serviu.

 

Mesmo assim, eu diria à doutora que, muitas vezes, a ignorância é uma bênção. Ela resolve muitos dos nossos problemas, enquanto pensar demais pode nos afundar, especialmente ao refletir sobre os problemas do mundo e os mistérios insondáveis entre o céu e a terra, da vida e da morte.

 

Fui à consulta pleiteando mais uma semana de afastamento, e ela, empaticamente, me concedeu mais 14 dias. Considero esse tempo mais que suficiente. No atestado, colocou o CID F33, referente à depressão, para preservar meu anonimato. Ainda assim, fiz questão de informar minha gerente sobre o verdadeiro motivo do meu afastamento. Relatei toda a história, desde a minha intenção de internação até o pedido de ajuda aos médicos que trabalham conosco. Ela disse que entendeu e me apoia nesse processo.

 

Agora, a bola está comigo. Tenho todas as chances ao meu lado. Muitas pessoas estão confiando em mim e acreditando na minha capacidade de superar isso. E eu não vou decepcioná-las. Pelo contrário, pretendo superar todas as expectativas.

 

Se eu sucumbi uma vez, o que leva a crer que desta vez será diferente? Vocês podem me perguntar. Bom, eu já aprendi com meus erros: entendi como minha mente me sabota e que não tenho controle sobre o uso. Preciso me manter 100% abstêmio; não existe essa lenda de “adicto social”.

 

Desta vez, estou muito mais aberto. Tenho me permitido ser mais vulnerável, expondo minhas fraquezas, conversando com amigos e contando com uma rede de apoio maior. Estou ainda mais determinado (e já fiquei dois anos limpo), mesmo com menos estrutura, mas compensando isso com uma força de vontade ainda maior.

 

 

ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL)
Enviado por ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL) em 06/01/2025
Alterado em 06/01/2025
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